A Única Saída
Não há outra escolha
Por João Lanari Bo
Festival de Veneza 2025
É interessante pensar um filme como “A Única Saída”, realizado em 2025 por Park Chan-wook, com os comentários de Matt Damon sobre o que dizem os executivos da Netflix a respeito de narrativas fílmicas:
Podemos ter um grande impacto nos primeiros cinco minutos? Queremos que as pessoas fiquem. E não seria ruim se você repetisse a trama três ou quatro vezes no diálogo, porque as pessoas estão mexendo nos celulares enquanto assistem.
Damon e o parceiro Ben Affleck tocaram nesse assunto – obviamente central nos tempos atuais – num talk-show independente, poucos dias atrás. Como a experiência Netflix de consumir filmes, vis-à-vis o tradicional hábito de consumir sons e imagens coletivamente numa sala de cinema, tem impactado a linguagem cinematográfica, empobrecendo-a. Para além de saudosismos e nostalgias, parece claro que a perspectiva “mastigada” que propõem os arautos do gigante do streaming retira do espectador a possibilidade de surpreender-se, de intrigar-se com cortes diabólicos, transições ardilosas e zooms delirantes combinados com trilha sonora de cordas e cravo – exatamente como acontece em “A Única Saída”.
Há um tempo de reflexão, fundamentais em filmes como o do coreano Park Chan-wook, que pede atenção e disponibilidade do espectador para percorrer dúvidas e vazios na assimilação da história contada à sua frente. Que pode inclusive gerar desconforto e desprazer pelas opções e alternativas que se sucedem. Tudo começa com um churrasquinho de enguias, quando nosso (anti)herói recebe uma cesta de presentes do seu empregador – mulher, filho e filha, o mundo se afigura para Man-su como realização plena, depois de 25 anos a serviço da empresa, produtora de papel. Como ocorre nas grandes organizações, privadas ou estatais, ele não suspeita que o “agrado” pode significar, helás, uma demissão à vista. O mundo perfeito à sua volta vai desmoronar, e nessa espiral descendente uma das saídas – ou a única saída – é embarcar num frenesi de assassinatos de supostos concorrentes para futuras vagas de emprego em papeleiras. E garantir que ele será o próximo contratado da nova empresa que entrou no mercado.
Um filme sociológico, portanto, que postula uma leitura crítico-sarcástica do capitalismo implacável que permeia as relações sociais de nosso tempo. Man-su perde o emprego por conta de investidores norte-americanos que impõem critérios de produtividade em cima de novas tecnologias – a famigerada IA – e exclusão de trabalhadores humanos. Nesse sentido, “A Única Saída” é uma sátira do capitalismo global, aquele capitalismo que estimula a impunidade moral — ou ainda, que é uma espécie de desculpa para crueldades e monstruosidades, como esquartejar corpos na estufa de casa, sendo o cultivo de plantas o hobby supremo do nosso protagonista. O frenesi mortífero, logo, aparece como decorrência natural de viver num ambiente competitivo, próprio do sistema regido pelas leis estritas do capital.
Nessa altura, em que todos parecem dementes em ação, de Man-su às vítimas, do círculo familiar ao entorno, quem parece ter assumido de vez a demência é o próprio filme – que articula uma estética hiper-realista com inseguranças afetivo-comportamentais dos personagens, cenários e imagens que excedem pelo arrebatamento visual com variações de roteiro e edição que desestabilizam a compreensão. Se o caso for de uma audiência Netflix, o incômodo pode ser imediato – e a saída, mais imediata ainda: mudar de canal. Sair do cinema, como lembrou Matt Damon, é uma decisão mais difícil de ser tomada…
Este é um filme que enquadraria numa daquelas situações conhecidas por cinéfilos de todos os quadrantes – depois de assistir um filme sem experimentar aquela sensação de prazer imediato, fragmentos retornam aos poucos como objeto de reflexão, como um item prazeroso de reflexão. Man-su, um desajeitado e over dramatic personagem, desperta um mix de reações que vão da abominação à simpatia, desde a primeira cena quando exibe autoconfiança, no limite da caricatura. O Man-su que vemos a beira do desespero não é o mesmo Man-su que ganhou o prêmio mais cobiçado da indústria papeleira alguns anos antes. Sua teimosia, contraposta pelo realismo da esposa Miri – é ela quem toma as decisões difíceis em um lar onde todos se recusam a aceitar que o mais importante, afinal, é tomar alguma decisão, inclusive a de descontinuar a assinatura da Netflix – conduzem a história ao seu desfecho, por assim dizer, tragicômico.
Ao fim e ao cabo, Miri é o último bastião lógico na família.


