O Clube dos Canibais

Mar visceral

Por Felipe Novoa

O diretor Guto Parente conta a história de um casal rico, Gilda e Otávio, que mora numa mansão frente a praia em algum lugar próximo de Fortaleza, por acaso eles se refestelam com carne humana, primariamente dos seus funcionários. Um certo dia a esposa Gilda descobre um segredo do líder do tal clube de canibais, Borges, e é aí que a história vira: eles vão de caçadores para caça.

O que parece ser uma obra gore se mostra um filme simples sobre dominação sexual, racial, política, econômica, etc. todos os personagens são caricaturas copiosas do que eles tentam demonstrar: as ricas são fúteis, hipócritas, elitistas, soberbas, imbuídas de desejos carnais e primais que as aproximam de animais selvagens (analogia que o diretor não se esquivou de usar de uma forma tão clara que te decepciona); as pobres não têm profundidade alguma e servem apenas como artifícios pro plot prosseguir e como alimento.

Essa caracterização explícita e revoltante ao mesmo tempo serve pra tirar um pouco o peso e o estigma por trás do canibalismo e deixa “O Clube dos Canibais” mais palatável, porém transmite também uma falta de apreço a inteligência do espectador permitindo que tudo seja muito literal e evidente. As cenas que contém mortes e ou sexo também tem a mesma sensação, tudo é tão brutalmente desprovido de cerimônias que podem parecer reflexos musculares sendo repetidos depois de eras de prática: uma pessoa está transado numa cena e na seguinte está sendo desmembrada sem nenhum momento pra respirar ou assimilar o que aconteceu.

O relacionamento entre os protagonistas também demonstra essa falta de tato, em quase todo momento eles estão discutindo, a fotografia do filme intensifica esse afastamento fazendo com que raramente eles (ou quaisquer outras) personagens falam no mesmo enquadro. essa falta de diálogo direto reforça a individualidade e o domínio que cada um exala mas falha em exercer sobre o próximo. Eles estão juntos mas não mal se tocam, eles se amam mas mal demonstram, se dizem amigos mas tem certos gestos de amabilidade obviamente falsos e pro forma. As cenas que mostram a harmonia do casal são surpreendentes em sua domesticidade, eles resolvem algumas crises abomináveis como se fosse um problema banal e demonstram como Gilda rege a situação.

Em alguns momentos há uma tentativa de fazer troça com o gênero, porém o espectador pode não ver motivo para isso, sendo algumas cenas simplesmente sem razão para chocar ou num tom desconcertante para a atmosfera do filme.

As caricaturas voltam diversas vezes a aparecer nos momentos mais oportunos, quando existe alguma congregação de pessoas você pode apostar que tudo vai parecer over. Homens de fraque assistem a sexo, depois a um duplo homicídio cometido por um carrasco desfigurado que só aparece por 10 segundos e some sem maiores explicações, depois participam de um jantar onde só estão presentes canibais ricos e brancos (tem um homem asiático no meio mas ele poderia ser considerado a cota racial).

Nesse jantar você entende todo o escopo do “O Clube dos Canibais”: é uma crítica aos ultra ricos, a nata da classe A! Milionários são pessoas horrendas que se divertem dominando pobres e sendo asquerosos em cada chance que podem. Essa mensagem é óbvia e sem peso, é a mesma crítica rasa que um adolescente faria ao ter seu despertar político, falta nuance e uma motivação maior da parte do roteiro.

Existem momentos que tentam balancear essa falta de profundidade no texto e chegam perto de conseguir fazer isso. O discurso de Borges durante o jantar é uma retórica retrógrada e meritocrática que frequentemente vem sido demonstrada por algumas figuras políticas, traçar esse paralelo entre essas personalidades é previsível mas serve o ponto de reforçar o ethos conservador hipócrita do núcleo rico do filme.

Em outro momento você tem cenas memoráveis que mostram algo que eu não chamaria de beleza mas que criam sensações agradáveis pro espectador, o filme começa e termina com o som do mar que relaxa antes e depois do banho de sangue, provavelmente para limpar o seu palato e te preparar primeiro para encarar essa chacina e depois para digerir o que foi presenciado.

No fim você assiste um filme coeso, mas que não causa grandes emoções, tudo anda de forma linear e previsível sem grandes revelações ou reviravoltas. Um exemplo de um slasher trivial com um toque de consciência social que se considera mais influente do que acaba realmente demonstrando.

 

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