Convenção das Bruxas

Os fins justificam os meios?

Por Fabricio Duque

Em 1990, Anjelica Huston em “Convenção das Bruxas”, de Nicolas Roeg,  povoou a imaginação das crianças com o terror de um realista conto-de-fadas, interpretando uma bruxa malvada  que “odeia crianças” e as transforma em ratos. Baseado no livro infanto-juvenil “As Bruxas” do escritor britânico Roald Dahl (de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, “Matilda”, “O Fantástico Sr. Raposo”, “Os Greamlins”, entre tantos outros adaptados ao cinema), o filme incorporou o tom fidedigno da literatura, que buscava entreter o espectador com narrativa dinâmica. Havia uma liberdade-timing de espontaneidade orgânica na construção da trama, quase anárquica e de entrega total de seus atores. Nós embarcávamos em uma aventura de humor macabro à moda dos Irmãos Grimm. Com toques de um espetáculo-Broadway filmado.

Em 2020, trinta anos depois, o diretor Robert Zemeckis (de “A Morte Lhe Cai Bem”, “De Volta para o Futuro”, “Forest Gump”) resolveu “re-imaginar” a obra para um público moderno. A refilmagem, produzido por Guillermo del ToroAlfonso Cuarón, e com música de Alan Silvestri, muda a vaga da Grande Bruxa-Mor para a atriz Anne Hathaway. Duas coisas. A primeira, uma pergunta, é o porquê de se mexer com o que está quieto. Qual a necessidade de se repaginar clássicos? Não há mais histórias inéditas? A segunda questão é que definitivamente o mundo mudou.

Na nova “Convenção das Bruxas”, a qualidade técnica interpretativa assumiu de vez a forma do entretenimento visual como condução básica e absoluta de se contar uma história. As sutilezas da interpretação de Anjelica Huston foram substituídas pela pressa-urgência do criar. O roteiro, de Guillermo del Toro e Kenya Barris, mais e mais, não só abraça, como se assemelha à estrutura de uma novela, por exemplo. As reações caricatas (de comédia pastelão), personagens que falam sozinhas para explicar o enredo, o politicamente correto pautado pela manipulação sentimental, as reviravoltas à la “Ratatouille”, a maquiagem exagerada (que ora lembra o “Coringa”), tudo transpassa uma atmosfera anti-naturalista, de encenação robótica e diálogos ensaiados (soando lidos). Um ator  deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção. Aqui, seus atores prendem-se na superficialidade, achando realmente que fechar os olhos e olhar ao lado pode estimular um Oscar.

Outro elemento de distanciamento com o público é exagerar no tom-diversão, que, por sua vez, imprime uma sucessão de gatilhos comuns e clichês de gênero, procurando cumplicidade para extenuar liberdades óbvias e facilitadoras do roteiro. “Convenção das Bruxas” também remodela a questão racial, ressignificando o protagonismo dos negros, como política afirmativa (tanto que o próximo agente 007 será uma mulher, negra e lésbica). Nós podemos perceber que talvez a nova figura das bruxas seja a representação do mal, que atua em zonas carentes, lugares “esquecidos pela lei”.

Sim, é um filme de aventura. De lutar contra seres sem dedos nos pés, mãos longas e sem cabelos na cabeça. Que voam e que fazem poção para “esmagar crianças”. Quando se diz que o mundo mudou é que parece que o apuro técnico da criação sai de cena para dar lugar à urgência da produção, exatamente como um capítulo de uma série do Disney Channel e ou uma novela que precisa ser gravada em um dia. “Convenção das Bruxas” também milita como “caçadores de bruxas”, inferindo ao seriado da Amazon Prime Video, “A Caçada – Hunters”. Até mesmo os efeitos especiais não convencem a quem assiste. Se olharmos atentamente, podemos então perceber particularidades com outros livros de Dahl. A cena, por exemplo, que o menino, possuidor de uma imagem corporal alternativa aos padrões da sociedade, exige a barra de chocolate, evoca a “Fantástica Fábrica de Chocolate” e com punição.

“Convenção das Bruxas” realiza outra façanha: a de não reverter o feitiço. Seus personagens transformados precisam conviver com novo eu e a nova forma. “Encontre o que você é dentro de você”, ensina-se com auto-ajuda existencial. Assim, entre trancos e barrancos, os feridos ganha sobrevida (com um final que pode fazer muita gente ligar para a casa do diretor Zemeckis e pedir um término mais popular). Neste caso, ponto para o filme, que conservou o bizarro e a estranheza, ainda que fofo, palatável e aceito. Concluindo, o longa-metragem corrobora o lema de que é quase obrigatório no momento atual substituir aprofundamentos e questões mais sensíveis com apelativas fugas visuais (a cena do gato e da rata) e com uma narrativa-formula, estimulando ainda mais o condicionamento do que se acredita ser um filme de sucesso. Em um dos comentários na internet, alguém escreveu “Prefiro o original, mas esse é divertido”. “Eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”, um ditado popular espanhol.

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