A Tabacaria

Por Pedro Guedes

 Der TrafikantA Tabacaria

A estranheza histórica e calculada

Por Pedro Guedes

 

 

“A Tabacaria” é um raro exemplo de filme que provoca estranheza no espectador e que frequentemente toma decisões que tinham tudo para dar errado, mas que… bem, acabam dando certo. Repleto de momentos conflitantes e de escolhas narrativas/formais que talvez não tenham muito a ver umas com as outras, o longa do austríaco Nikolaus Leytner ainda assim demonstra inteligência e cautela ao “amarrar” cada um destes elementos aparentemente incompatíveis, criando sequências genuinamente evocativas e que parecem ter saído de um pesadelo – pesadelo este que, diga-se de passagem, se reflete também nos temas que o filme aborda e, principalmente, na memória de um dos períodos mais sombrios da História do mundo (o regime nazista).

Situado no final dos anos 1930, o roteiro de Klaus Richter e do próprio Leytner (escrito a partir do romance homônimo de Robert Seethaler) gira em torno de Franz, um adolescente de 17 anos que, após presenciar uma morte repentina em sua família, resolve mudar de cidade e começar a trabalhar como aprendiz em uma tabacaria frequentada por ninguém menos que Sigmund Freud. A partir daí, Franz começa a desenvolver uma forte relação de amizade com o psicanalista, que logo para a fornecer conselhos amorosos para o jovem – afinal, ele está interessado em Anezka, uma moça que mora perto da tabacaria. Enquanto isso, o cenário político da Áustria vem se tornando cada vez mais hostil em função, claro, na ascensão do nazismo na Alemanha, levando os três personagens a questionarem se vale a pena permanecer naquele país ou se seria melhor deixá-lo para buscar condições de vida mais apropriadas.

Mergulhado em uma atmosfera incerta e lúgubre, “A Tabacaria” é fotografado por Hermann Dunzendorfer de maneira sempre estilizada, mantendo a obra sob cores sempre sombrias e incômodas, mas contrapondo-as aos pequenos toques de vermelho que se manifestam, por exemplo, nas gotas de sangue que saem da boca de um personagem que se afoga e que logo assumem a forma de pétalas de rosas. Aliás, só esta última frase (“gotas de sangue que saem da boca de um personagem que se afoga e que logo assumem a forma de pétalas de rosas”) já diz muito sobre o filme em si, já que a direção de Nikolaus Leytner sempre cria diversos momentos que, de tão estranhos e disformes, fazem o espectador se sentir no meio de uma alucinação – e a inventividade visual de Leytner desempenha um papel fundamental nisso, pois ajuda a dar “peso” a estes momentos: observem, por exemplo, o plano em primeira pessoa que enfoca o ponto de vista de uma garota que está sentada em um balanço e que de repente vai para as nuvens (literalmente).

Existem vários momentos em “A Tabacaria” que seguem esta lógica (ou seria ilógica?) de propósito: quando um personagem aborda um casal com uma faca, os abordados podem reagir das formas mais… inesperadas possíveis. E sim, este é um daqueles filmes que frequentemente levam o público ao sentimento de “WTF???” – a diferença, porém, é que Leytner sabe construí-los com sabedoria. Quando personagem está se afogando da maneira mais improvável do mundo, o espectador consegue sentir a agonia sua agonia e praticamente implora para que venha a revelação de que aquele afogamento nada mais era do que uma cena de sonho, por exemplo. Aliás, o sofrimento dos personagens – e, em parte, do público – está diretamente ligado ao tema central da história: a ascensão do nazifascismo e o medo dos horrores que invariavelmente vêm com ele. O contexto que abriga a narrativa, portanto, torna-se parte integral dos pesadelos obtidos pelos protagonistas, que o tempo todo estão buscando uma solução para a coisa mais assustadora que a Humanidade poderia produzir em pleno século 20.

Infelizmente, “A Tabacaria” não é perfeito: por mais que a condução de Leytner seja eficiente na maior parte do tempo, existem alguns momentos onde a estranheza se torna mais involuntariamente cômica do que impactante (um exemplo disso encontra-se logo nos primeiros minutos da projeção, quando uma pessoa é acertada por um raio). Além disso, há instantes onde a narrativa parece não saber direito para onde ir, perdendo o ritmo de vez em quando – e o desfecho da história, em particular, é frustrante, encerrando o arco daqueles personagens de maneira excessivamente abrupta. Mas estes tropeços não comprometem a experiência como um todo, que, ainda assim, é capaz de envolver o espectador em uma atmosfera sombria, incômoda e lúgubre. E estes três adjetivos também se aplicam ao contexto histórico no qual o filme se passa e que deveria estar servindo de contraexemplo para a nossa realidade atual.

Trailer

https://youtu.be/kxjaGLXpq70

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *