A injustiça da indústria

Por Vitor Velloso

Durante o É Tudo Verdade 2019


Durante o 24º É Tudo Verdade, o público pôde ver uma quantidade chamativa de documentários com temáticas musicais, ou sobre músicos, que abordavam algumas figuras lendárias como Dorival Caymmi e Fela Kuti, outros, momentos emblemáticos de nossa música como “Memórias do Grupo Opinião” e “O Barato de Iacanga”.

“Rumo”, dirigido por Flavio Frederico e Mariana Pamplona, é um longa à parte, ele irá contar a história do grupo homônimo, que apesar de um sucesso grande de público em shows no eixo do sudeste, não possuía muita divulgação nas rádios e TV, logo, acabou sendo esquecido brevemente pela nossa história, mas graças aos diretores, a maior parte dos espectadores conheceram o trabalho desta banda tão peculiar de um período frutífero da música nacional. A abordagem formal realizada pelos cineastas é extremamente compatível com a estética proposta pela banda, sendo dinâmica e sabendo dosar a comicidade com uma questão coletiva de intelectualidade meio canhestra (como ironia, claro). Além das sacadas de linguagem que ponderam as flexibilizações dos conteúdos do filme, exemplo a curiosa escolha de realizar entrevistas filmadas, mas transformá-las em animação e ir gradativamente revertendo os elementos de fundo, até o primeiro plano. Essas conversas possuem um tom muito amistoso de comunhão do grupo como um todo, desta maneira, quanto mais vamos nos aproximando do reencontro (e consequentemente tomamos uma unidade maior daquilo tudo), somos agraciados com as imagens reais das entrevistas.

A escolha é simples mas de uma eficiência tamanha, já que fixa essa concretização da banda unida e flerta com pequenas modificações na estrutura formal clássica de documentários deste estilo, algo que seria plausível dentro dos padrões da “Rumo”. A abordagem mais informal ganha o público com facilidade, pois além de estarmos diante de pessoas absolutamente carismáticas, podemos escutar a música que eles faziam e ver parte das questões experimentais que eles comentam na entrevista, no palco, gerando um sorriso no rosto de quem nunca teve contato com o grupo.

Enquanto a forma se desenha em favorecer e preservar as características do grupo, o material de arquivo preocupa-se em resgatar todas as memórias que ajudem a complementar essa imagem da banda; notícias, entrevistas, shows, matérias de jornal etc. Não é um uso pra lá de original, mas consegue ser sólido e fiel ao seu formato até o fim. E essa é a beleza do longa, sua simplicidade. O filme parece ser cantado-falado, em cada corte, é possível sentir as pequenas viradas, estruturais e em certa medida temática, mas continuamos naquele ritmo cadenciado que progride sem dimensionar suas ambições. A necessidade de enfrentar dogmas na música e no cinema, acabam criando alguns produtos que além das pequenas e sutis subversões à normalidade, conseguem transmitir os sentimentos do período e a regionalidade, quando revela que tal grupo jamais poderia aparecer no Rio de Janeiro, apenas na grande São Paulo. Tal exercício transforma “Rumo” em um retrato anacrônico entre dois períodos que se distanciam pela história, mas estão presentes naqueles setenta e sete minutos de projeção no cinema. E este poder, ninguém pode tirar.

Apesar de possuir uma estrutura simples e uma linha concisa que não demanda grande esforço em acompanhar, o projeto alcançar o feito de engajar a todos a escutarem a música daquelas pessoas, sentir o que elas sentiram e nos informar dos fracassos midiáticos explicando a falência ideológica do mercado musical, é um feito bastante relevante.

Há uma pequena dobra do ritmo ao se aproximar do fim, onde vemos uma breve inclinação nostálgica, que sempre é um sentimento perigoso. Acontece que aqui, é visível o esforço em fugir deste meio comum, a montagem busca tornar natural aquilo que possui fim, assim como na música “Essa é pra acabar”, mas acaba pesando um pouco a mão na comunidade que aceita de bom grado que a finalidade foi cumprida, porém, demonstra certa saudade daquela fricção estética que promovia. Nada mais justo encerrar o texto com aquilo que encerrou a carreira da banda.

“Essa é pra acabar
Pra dar o ponto final
É pra romper de vez
Nosso cordão umbilical…”

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