Simplicidade no Olhar

Por Michel Araújo


O olhar no cinema contemporâneo industrial muito se acelerou, em especial a partir da década de 1990. A montagem cada vez mais rápida, o cinema de ação com suas explosões sensoriais caminhando contra as tramas de profundidade psicológica assim como o hiper maneirismo estético que pôs abaixo a demanda de um olhar atento ao detalhe de uma imagem corriqueira tornaram a simplicidade no olhar um exercício quase desinteressante no contexto da espectatorialidade do século XXI. Em contrapartida, há tendências de saturação dessa mesma simplicidade, os chamados slow cinema e cinema de fluxo – sendo este último notadamente de matrizes asiáticas. E neste embate entre o olhar simples saturado pela extensão do plano aos limites da fadiga, e o olhar célere hiper maneirizado de pompa explosiva surge um título que parece não corresponder a nenhum dos dois mas estabelecer seu próprio ritmo de forma consideravelmente particular, e este é “Amor Até as Cinzas” (2018).

Dirigido por Jia Zanghke (“Um Toque do Pecado”, “As Montanhas Se Separam”), o longa-metragem chinês, “Amor Até as Cinzas”, apesar de partilhar similaridades com o trabalho de outros diretores de mesma nacionalidade – à exemplo Hou Hsiao-Hsien e Wong Kar-Wai -, ainda mantém uma particularidade em sua montagem e mise-en-scène. Na cena em que conhecemos a personagem principal, Qiao (Zhao Tao), há um longo porém dinâmico plano dela entrando na sala onde membros da máfia estão a jogar mahjong, e ela os cumprimenta com truculência e irreverência, mostrando sua intimidade com eles. Ainda no mesmo, há uma pequena briga entre dois dos mafiosos que é apaziguada por Bin (Fan Liao), par romântico de Qiao. No estilo de decupagem (pré-organização dos planos) de um cinema comercial, um plano médio contínuo de quase cinco minutos de duração em que a organização do espaço e da dramaticidade se dá apenas pelo direcionamento do olhar da câmera ao invés da intervenção do corte num jogo habitual de plano e contraplano entre os personagens que dialogam é consideravelmente fora do usual. Em contrapartida, é também mais denso em comparação ao cinema de fluxo, pois possui a ação dramática em curso, diferente de uma rarefação da narrativa. Tal estilo remete, talvez, mais a um realismo baziniano, porém ainda mais sutil do que este.

Há alguns poucos momentos que quebram esse olhar leve de “plano médio contínuo”, notadamente o ponto de virada da trama, quando Bin é atacado por insurgentes que querem tirá-lo de sua posição de poder na máfia. Após uma cena de luta – também mediada por planos-sequência, há uma espécie de digressão que mostra o capô e a insígnia do carro ensanguentados, bem como o charuto de Bin em brasa no cinzeiro, ambos em primeiro. O recurso do primeiro plano é pouco usado na obra, que se ampara mais em planos médios para uma composição mais fluida da encenação, ao invés de recortar um detalhe para elegê-la como signo máximo. Após essa cena descobrimos que Qiao foi presa por ter disparado uma arma para salvar Bin. Durante o disparo há um tipo de leitmotiv sonoro que se repetirá nos momentos que a personagem tem uma tomada de iniciativa para sobreviver. O som – um rufar de tambor cuja intensidade vai aumentando gradativamente – marca um certo compasso na cena, um compasso lento que pesa na encenação e reflete na significação das atitudes de Qiao.

Quando Qiao finalmente encontra Bin após cinco anos presa, o momento de reencontro não é filmado com um primeiro plano para cada um de seus rostos em plano e contraplano, mas também é mediado por um plano geral, de ambos caminhando após Qiao denunciar um mototaxista numa delegacia por tentativa de estupro. Não há uma magnitude maneirizada desse reencontro, mas apenas um olhar corriqueiro de uma reaproximação inesperada por Bin, considerando a situação. Esse olhar de um amor ordinário, naturalizado, é contrariado pela persistência da própria Qiao em estar com Bin apesar dele não tê-la esperado sair da prisão e já ter se envolvido com outras mulheres. Esse tributo a uma espécie de romance implacável que sustenta bravamente o teste do tempo acaba por trair o olhar simplista que tecia a obra. Uma boa obra sobre as decepções da vida que acaba por recompensar os ares de pessimismo após tudo ser dito.

Críticas Relacionadas

Crítica: Jia Zhangke, Um Homem de Fenyang

Por Fabricio Duque No documentário "Jia Zhangke, Um Homem de Fenyang", sobre o cineasta chinê [...]

Crítica: Um Toque de Pecado

TIAN ZHU DING  (A TOUCH OF SIN) Na China dos dias contemporâneos, quatro pessoas de reg [...]

Crítica: As Montanhas Se Separam

Entre "dumplings", Pet Shop Boys e “mercadoria”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados