Discurso Anônimo

Por Vitor Velloso

Durante o É Tudo Verdade 2019


“Soldado Estrangeiro” ou a concretização fálica de uma moral militar em pleno objeto cinematográfico. A reflexão da imagem no cinema é algo que atinge o campo do documentário de maneira distinta, já que, normalmente, não há um intenso controle do que acontece diante da câmera. E ainda que haja esse rigor com a filmagem, devemos levar em consideração que alguns projetos são facilmente surpreendidos pelos objetos que decide levar à tela.

José Joffily e Pedro Rossi buscam realizar um trabalho que desamarra a estrutura em prol de uma leitura crítica (não concreta) de um pequeno grupo de brasileiros que está fora do país atuando em outros exércitos ou grupos militares. Quando a projeção se inicia, imagina-se que iremos acompanhar o homem que inicia o longa, desta maneira, nos engajamos ao personagem, que possui uma construção bastante íntima até, somos capazes de ver sua aflição em decidir manter-se afastado de sua filha por cinco anos, no mínimo e nos conscientizamos, por intermédio direto da montagem e da filmagem, que há um problema geral de violência que sonda a vida desta pessoa, algo que é explicitado em uma encenação, pouco convincente, de alguns planos do personagem conversando ou vendo TV. Há um problema de diretriz ideológica que já permeia este momento do longa. Não cabe aqui um posicionamento diante dos assuntos políticos abordados nestes primeiros minutos, mas uma reflexão de divergências graves entre o discurso que José e Pedro fizeram antes da exibição do filme, ao que mostram na tela durante esta construção do caráter de seu “objeto cinematográfico” (irei me explicar mais adiante). Não trata-se de firmamento estético, mas de uma construção de planos que nos leva a entender determinadas justificativas para futuros argumentos, como a desistência do Brasil como morada.

Porém, após abrir a mesa à este futuro soldado da Legião, somos arremessados à um outro soldado que não tem nenhuma ligação direta com o anterior. E isso acontece mais de uma vez, provando que a estrutura será ditada pelo apego e desapego destes homens. Factualmente isso gera uma consequência, já que não há a menor possibilidade de reflexão (por parte dos cineastas) acerca das personalidades, nem de suas ações e morais, o espectador é jogado de um lado ao outro sem a menor coerência, nem formal, nem temática (estruturalmente). Cada pseudo-construção termina sem a menor relevância, ignorando completamente qualquer vínculo com o material, o que gera uma objetificação direta de cada pessoa que surge no documentário. Essa vulgarização (aqui cabe a palavra) das morais e das complexidades de cada assunto que pode ser abordado no filme, provoca uma repulsa imediata de cada plano que se segue, não permitindo que o público consiga adentrar diante daquilo vê, pelo contrário.

Se a intenção era permitir o julgamento generalizado de cada um, além de não funcionar, pois o tempo em tela é demasiadamente enxugado de produtividades e alongado de futilidades, a exposição a qual eles submetem o tema e as pessoas, é extremamente duvidosa. Mas fica claro que o objetivo era criar uma relação objetiva daquele mundo, mantendo os autores fora do campo reflexivo e atuando massivamente para uma proposta de enquadrar momentos diferentes de cada um, como uma progressão narrativa, com consequências visíveis. Além da proposta não ser original, a falsa coerência que é ditada pela imagem, fruto da intencionalidade do artifício, fortalece um estigma muito superficial daquela realidade como um todo, sem compreender que existem questões claramente ideológicas que são atropeladas durante a projeção.

A ideia de que o homem em guerra é reduzido a uma quintessência humana, por sua vez instintiva, onde não há espaço à exterioridade, é algo que essencialmente é compreensível, mas que possui um obstáculo, a própria ideia da guerra em si. Há uma infinidade de pessoalidade que é envolvida no conceito geral do exército ou do combatente e elas não podem ser removidas da equação porque são elas que definem a motivação, a reação e consequência das duas, desta maneira, os diretores centralizam uma questão muito delicada, que esbarra em diversas questões ideológicas, políticas e antropológicas, sem refletir ou lançar o debate. Essa apatia diante do material, é tão visível na objetificação de cada um, como na ausência de autor de pequenos fragmentos de texto durante a projeção, que só é esclarecido quem de fato escreveu aquilo, no último plano do documentário, onde já não há substância a ser explorada diante da imagem cinematográfica e da temática abordada. Além da nítida interiorização daquilo que difere qualquer soldado daqueles brasileiros. Essa proposta anônima dá o caráter do filme. É necessário concretizar determinadas discussões para que a forma fílmica compreenda um mínimo de discurso que há no plano inicial.

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