Um sonífero

Por Pedro Guedes


É difícil se manter acordado ao longo dos 94 minutos de “Meditation Park”: contando com uma estrutura narrativa que beira a nulidade, o filme desenvolve seus temas (sim, pertinentes) de maneira excessivamente inofensiva e desordenada, falhando em conquistar o potencial que almejava. Além disso, a direção de Mina Shum revela-se medíocre de várias formas diferentes: a composição dos planos é básica demais, os momentos dramáticos são tratados com uma leveza comprometedora, a coordenação dos atores não se destaca e o ritmo problemático transforma a experiência em um tédio quase absoluto. Não é fácil, portanto, escrever sobre uma obra tão… inócua.

Escrito e dirigido por Shum, “Meditation Park” gira em torno de Maria, uma mulher que imigrou de Hong Kong ao Canadá com seu marido Bing há mais de 40 anos e, desde então, constituiu uma família que vem crescendo cada vez mais – sua filha já se tornou mãe, transformando a protagonista, claro, em avó. O casamento de Maria com Bing, diga-se de passagem, é repleto de tradições e comportamentos que costumam ser mais proliferados na cultura chinesa. Depois de descobrir roupas íntimas no bolso de Bing, porém, Maria começa a questionar sua condição de esposa subjugada pelo marido e lutando para encontrar uma voz mais independente, alcançando um forte amadurecimento após um convívio que se manteve intocado por tantas décadas.

Já iniciando a narrativa com uma cena que parece saída de uma sitcom (Bing abre uma porta e diz, para Maria, algo como “Querida, estou indo às compras!“), “Meditation Park” é dirigido por Mina Shum de maneira frequentemente artificial, tola e bobinha – e não é à toa que pouquíssimos momentos dramáticos consigam fazer jus às suas premissas, já que o impacto que deveria ser sentido pelo espectador é sempre atenuado pela condução leve, bem humorada e inconsequente de Shum. O que falta, aqui, é o famoso “soco no estômago”; tudo é inocente e fofinho demais para alcançar qualquer tipo de relevância (e entendo que a intenção do projeto possa ter sido atingir um público mais amplo – com direito à abordagem típica das produções que lotam a “Sessão da Tarde” de hoje –, mas isso acaba minando o potencial dramático da obra).

Da mesma forma, Shum faz um trabalho igualmente medíocre ao decupar as cenas que imaginou em seu roteiro, restringindo-se a planos fechados e a contraplanos repetitivos que enfocam as conversas da maneira mais pobre e básica possível – e, consequentemente, fazendo o filme soar mais como um capítulo de telenovela do que como uma produção pensada para o Cinema. Se somarmos isto ao fato de que estes diálogos consistem basicamente em falas bobinhas, engraçadinhas e artificiais, o resultado se torna ainda mais frágil. Como se não bastasse, Shum falha miseravelmente no ritmo que encontra para a narrativa, já que praticamente todas as cenas são conduzidas de forma lenta e aborrecida (por mais que tentem ser “divertidinhas” na medida do possível) – e, com isso, o longa acaba despertando bocejos ininterruptos no espectador, que fica entediado ainda nos primeiros minutos da projeção.

Assim, “Meditation Park” acaba ganhando um pouco de força graças aos esforços do elenco, que conta com atores que, mesmo incapazes de salvar o projeto como um todo, ao menos injetam alguma energia às personas que encarnam: Pei-Pei Cheng vive Maria como uma mulher que não parece se dar conta da condição infeliz na qual se encontra, descobrindo uma potência dentro de si que surge como uma surpresa até para ela mesma; Sandra Oh compõe Ava, a filha de Maria e Bing, como uma filha fiel à sua mãe e que deseja respeitar as tradições de sua família, porém percebe que algumas destas podem ser prejudiciais; e Tzi Ma transforma Bing em um sujeito autoritário e que, embora se destaque em um monólogo onde lamenta o fato de ter envergonhado e desonrado seus pais, ainda assim leva o espectador a condenar suas atitudes.

É uma pena, no entanto, que estas performances não sejam o suficiente para que “Meditation Park” deixe de servir como sonífero para o público. Concentrando-se em uma história que fala sobre a força da mulher, porém gira em torno de uma protagonista cujo arco é constantemente definido por um homem que está ao seu redor, este trabalho de Mina Shum conta com intenções razoáveis, mas não tem pulso firme para executá-las de maneira memorável ou impactante.

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