Mas o quê?!?!?!

Por Pedro Guedes


Dois minutos. Este foi o tempo necessário para que “Horácio” me convencesse de que se trata não de uma produção originalmente pensada para ser exibida nos cinemas, mas de um projeto universitário feito para disputar festivais e terminar no YouTube depois de um tempo. Aliás, o longa é tão bizarro em sua execução que, honestamente, nem sei se me sentirei à vontade para incluí-lo na minha lista dos piores filmes de 2019, já que a sensação que me foi gerada por este trabalho de Mathias Mangin não foi de raiva, frustração ou impaciência, mas de pena. E muitas risadas involuntárias, claro.

Adotando o centro de São Paulo como palco da maior parte da narrativa, “Horácio” lida com duas tramas paralelas que, mais cedo ou mais tarde, acabam se encontrando de alguma forma: a primeira gira em torno do personagem-título, um senhor de 80 anos que mantém sua filha sequestrada em cativeiro a fim de preservá-la para o momento em que passará toda a sua herança (criminosa) para ela; a segunda acompanha um sujeito que chafurdou em uma dívida de 50 mil reais e, para ajudá-lo, chama uma prostituta que lhe acompanha frequentemente. Ou seja: o filme basicamente alterna entre um indivíduo rico que mora num edifício luxuoso (pelo menos até onde o orçamento da produção permite) e duas figuras marginalizadas que vivem suas confusões pelas ruas de São Paulo.

A premissa, em si, parece interessante – e é uma pena que o roteiro de Mangin não chegue nem perto de fazer jus às suas ambições. Para começo de conversa, a(s) trama(s) se desenrola(m) de maneira surpreendentemente frouxa e pouco imaginativa, já que todas as situações mostradas ao longo do filme se resumem a clichês e – para piorar – são desenvolvidas de maneira fácil, com diálogos pavorosos, ideias que ficam subaproveitadas e soluções que não fazem o menor sentido se considerarmos o comportamento que os personagens vinham exibindo até então, mas que o roteiro prefere adotar do mesmo jeito só para chegar logo a uma conclusão (por exemplo: Horácio é um criminoso procurado, então… por que diabos ele cogitaria chamar uma ambulância para levá-lo a um hospital?!). Além disso, o filme acredita ser mais rebuscado e relevante do que é, de fato, encarando sua história (que, convenhamos, é bem simples) de forma enrolada demais.

Mas isso não é nada perto das condições técnicas do projeto, que, como já falei, conseguiu me deixar impressionado em questão de dois minutos: já iniciando a projeção com uma câmera que se movimenta para os lados (não chega a ser uma panorâmica) sem qualquer coordenação motora, Mangin e o diretor de fotografia Diego Gare mantêm o quadro instável e focado em pontos absolutamente ilógicos (qual o propósito da cabeça de uma personagem surgir escondidinha num canto enquanto um móvel inteiro – e desfocado – segue tampando 90% da imagem?), impedindo que o espectador sequer compreenda o que está acontecendo. Em outros momentos, porém, a dupla adota o caminho contrário e compõe uns planos estáticos que são dolorosamente deselegantes, alternando entre a estabilidade e a instabilidade sem qualquer propósito. E o que dizer daquele zoom-out horroroso que se distancia de um edifício e que foi claramente feito durante o processo de edição?!

Ok, para que não pareça que tudo é um desastre neste longa, vale apontar que a direção de arte, assinada por Martin Garcia, até tenta criar um contraste interessante entre o estilo de vida privilegiado do personagem-título e as ruas estreitas das comunidades de São Paulo – e há um momento em que Mangin e Gare enfocam uma conversa entre três personagens num bar e que, embora se “inspire” demais em “Tropa de Elite”, ao menos apresenta algum estilo. Fora isso, é um filme simplesmente inacreditável que jamais consegue encontrar um equilíbrio entre o drama e a comédia, obrigando o espectador a ouvir diálogos que oscilam entre o expositivo, o ofensivo e… bem, um monte de ameaças/frases de efeito que, de tão ridículas, parecem ter saído de uma esquete do “Hermes e Renato” (lembram-se da novela “O Proxeneta”? Então, é algo mais ou menos parecido com aquilo, só que levando-se a sério.).

Assim, o que me resta dizer é que “Horácio” é tão tolo, pobre e artificial que, em vários momentos, acaba se tornando divertido – e a performance principal, de Zé Celso, é exagerada a ponto de gerar um monte de risadas (uma das primeiras cenas envolvendo Horácio o traz lendo uma manchete de jornal e gargalhando, como se fosse um vilão de filme  de super-herói!). E isso porque nem falei sobre o design de som, que, além de mal acompanhar a sincronia dos movimentos labiais expressados pelos atores, ainda oscila de qualidade entre uma cena e outra (aqui, o som está mais claro; ali, está ecoando, como se tivesse sido gravado num banheiro).

Enfim… é uma obra bisonha. Mas, como já falei, não me sinto à vontade para condená-la totalmente, já que dei boas risadas durante a projeção. Pena que essas risadas não faziam parte das intenções do projeto.

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