Traços de um fomento esquecido

Por Vitor Velloso


Existem brincadeiras que vão longe demais. Quando a diversão ultrapassa os limites e ganha contornos de tragédia. Bom, não trata-se de moralismo ou tabu com o sexo (prazer), pelo contrário, a questão é que o financiamento de projetos cinematográficos que ofendem o cérebro do espectador estão dominando as salas de projeção. A franquia chanchadesca “De pernas pro ar” é uma das mais bem sucedidas em termos de bilheteria, não à toa, continua tendo continuações e seguirá assim enquanto a conta for extremamente positiva. E desta maneira seguem os números, todos ganham dinheiro e o povo consome o ópio no cinema de tarde, pagando horrores em um ingresso, para chegar em casa e dopar-se novamente com novelas, Big Brother e futebol.

Com a promessa de uma nova perspectiva, desta vez vemos uma trama que busca algum tema contemporâneo minimamente válido e traz uma frente acerca das gerações, o distanciamento familiar e a mídia catapultando novos nomes ao mercado. Mas tudo isso claro, não sai do plano das ideias. Esse pseudo-amadurecimento da protagonista é levado de maneira forçada à tela, onde decide abandonar a empresa que criou e viver com sua família. Em uma construção mais colonizada impossível, onde viaja o mundo e decide isso em… Paris. Se esforçando em reabilitar-se com a família, ela descobre uma nova concorrente, que traz a realidade virtual para o mercado erótico. Então temos um debate interessante acerca da sociedade e como esta tecnologia se reflete nas pessoas? Não. Apenas é utilizado como gatilho para piadinhas previsíveis e uma relação frágil da diferença de idade entre as duas mulheres, Alice (Ingrid Guimarães) e Leona (Samya Pascotto). Ainda que haja algum esforço em demonstrar como as pessoas reagem à novas tecnologias e possuem suas necessidades supridas por parte desses lançamentos, nada sai da superfície, como de costume, e um produto que poderia estar aberto à autocríticas e assumir às possibilidades de conflito geracional em sua forma, prende-se ao conteúdo canhestro em artifício humorístico. A falta de comprometimento em transformar a rentabilidade em algo minimamente não tóxico, é uma das maiores questões destes filmes de comédia nacional que buscam mostrar padrões e estilos de vida à população, sem nunca desejar a presença dos mesmos nestes estereótipos que cria.

Julia Rezende, diretora, é também responsável por “Um namorado para minha mulher” e “Meu Passado me condena 1 e 2” e outros projetos, lida com temas amorosos com bastante frequência em seus longas, questões de estabilidade na vida e uma vasta repetição de clichês mercadológicos. Curiosamente Júlia não é uma máquina de fazer xerox, como a grande maioria que compõe este “nicho”. Ela possui alguma consciência daquilo que filma, possui uma construção de misancene cadenciada e diagrama bem sua narrativa em torno de suas reviravoltas manjadas no texto. Ainda assim é um exercício doloroso defendê-la, pois sua carreira nos mostra alguns resultados pavorosos, ainda que melhor que produtos do Danilo Gentilli, Whindersson Nunes etc. Exemplo, “Ponte Aérea” não é próximo de “meu Passado me Condena”, há uma maturidade maior que é nítida. O que a leva realizar estes projetos? Vai saber…

A imposição ao cinema nacional de ter o prestígio popular é compreensível, aliás, necessária, já que sinônimo de “qualidade” neste meio de produção elitista são longas quase inacessíveis, que não dão bilheteria, logo, não entram em circuito e que não segura o grande público nem por trinta minutos. Então, é absolutamente justo que haja um flerte maior com gêneros populares consagrados, como a comédia, porém, é possível utilizar do humor para refletir a sociedade (não apenas citar), acima de tudo representar aqueles que assistem e dão lucro a estas produções. A maioria branca na tela, quase todos ricos e viajando o mundo inteiro, não representa 20% do público, com otimismo. E buscar fugir determinados estereótipos fajutos que estão perpetuados à décadas na teledramaturgia brasileira. “Mas o povo não gosta de outra coisa” Quais as opções viáveis que são oferecidas? Além de não ter nenhum suporte à produção nacional, quando há (fora do humor) o circuito se resume às áreas nobres da cidade.

“De Pernas pro Ar 3” não inaugurou nada, não debateu nada e manteve-se fiel à franquia preguiçosa construída anteriormente. Continua sendo uma das menos piores, mas seus concorrentes são vergonhosos. “A terceira vez é sempre melhor” Bom, eu não aposto nisso.

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