Limpando o novo mundo com o velho

Por Fabricio Duque


O caminho inevitável do ser humano é encontrar novas barreiras para desbravar. Descobrir possibilidades de existir e de conexão. É o progresso de um novo tempo que sempre se movimenta, e, no momento atual, esta velocidade aumenta exponencialmente em um ritmo que não há como acompanhar.
Nós estamos na era tecnológica, em que toda e qualquer informação tornou-se obrigatoriamente imprescindível. Nossos celulares são agora partes cognitivas de nossos corpos. O volume imposto do que se precisa ler e assistir é tão absurdamente monstruoso que sentimos um engessamento. Uma vulnerabilidade. Uma impotência de sempre estarmos um passo à trás. “Por que não fazer tudo digitalmente?”.

“The Cleaners” aborda uma consequência desta nova era que nos assalta de segundos a segundos. Dirigido pelos alemães Hans Block e Moritz Riesewieck, o documentário, que adentra um submundo até então desconhecido, já passou pelos festivais de cinema de Sundance e Berlim, vencendo inclusive uma Menção Honrosa no É tudo Verdade do ano passado.
A sinopse nos estimula o questionamento sócio-comportamental. No sombrio submundo da internet, quem é responsável por controlar o que vemos e o que pensamos? Este é um olhar analítico sobre a indústria virtual responsável por fazer limpezas digitais, apagando e controlando os conteúdos que ficam visíveis online. O longa-metragem é um estudo antropológico atual. De um mundo que apesar da liberdade, engessou-se em um moralista e limitado politicamente correto. Ao invés de confrontar a convenção de certo ou errado, a opinião pública resolveu esconder sem sexo, palavrões e exposições-fetiches.

Como mensurar o que é importante ou não e ou o que é permitido? Como analisar tudo o que é publicado? Qual o grau de ofensa em uma postagem? É nesse momento que uma nova profissão é criada: os limpadores digitais, indivíduos sociais, em status-quo de deuses modernos, utilizam suas percepções subjetivas para “liberar” ou “censurar” subjetividades de outros. É um errante servindo como padrão moral para com outro errante. É o aforismo do “sujo falando do mal lavado”.

“The Cleaners” é sobre a robotização do mundo, que transforma humanos em incompatíveis zumbis sociais. Cada um tenta a “adaptação e a resignação com o novo” em uma época mais auto-preconceituosa. A internet possibilita que os quereres (e as vontades) mais primitivos e orgânicos possam ser atendidos com um único click.

O documentário conduz seu público a uma contemplação de ideias conflitantes, que para uns não incomodam, mas que para outros é caso de vida ou morte. Sim, é a máxima do individualismo. Da importância do eu. Do narcisismo expositivo que retroalimenta ações e reações. Seus “limpadores” são confrontados com o que de mais radical existe, como por exemplo, decapitações, opções infinitas de relações sexuais não convencionais, ofensas políticas, mortes agendadas, mas também vídeos de animais fofos e crianças agindo no mais puro do estágio.

Eles são conduzidos no limite tênue de suas emoções mais primárias. E nenhum, depois de tanta exposição visual aos olhos, consegue seguir a vida da mesma forma sem ter sido intensamente afetado. É o preço da liberdade? Por uma luta diária pela mitigação completa dos limites? Até que ponto, regras impositivas devem ser estabelecidas? Quanto maior o número de informação, maior também é a expansão das possibilidades do ser e do agir.

Outro questionamento principal, quiçá o mais importante, é sobre o que é conduta moral e como foi condicionada em nossa sociedade. Que convenção é essa? Pela religião católica que seguiu um padronizado modelo familiar moldado na Bíblia e instaura a culpa passível de punição divina? São questões universais, que este e talvez os próximos filmes possam fornecer respostas.
Se procurarmos no dicionário a definição de moralidade, encontraremos que é um “conjunto dos princípios morais, individuais ou coletivos, como a virtude, o bem, a honestidade” e da palavra ética: “substantivo feminino, um segmento da filosofia que se dedica à análise das razões que ocasionam, alteram ou orientam a maneira de agir do ser humano, geralmente tendo em conta seus valores morais”.

Então, moralidade e ética são valores construídos. Não totalmente purificados. São influenciáveis e condicionados por outras referências mundanas e do meio em que cada um vivencia suas próprias experiências. Sim, o leitor está certo: é impossível separar a passionalidade emocional e a lógica racional. “The Cleaners” é muito mais que um documentário, é um completo estudo, que desencadeia incisivas auto-inquisições de advogado do diabo que nos fazem acordar de nossas apatias apressadas.

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