Filmar é sobreviver neste mundo cão

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2018


O cinema é feito de histórias, seu material bruto. E a cada uma, o público encontra verdade, tristeza e emoção, sentimentos estes fios condutores da filmografia de Cristiano Burlan que imprimiu os acontecimentos de sua vida em suas obras intimamente pessoais.

O diretor expõe suas vivências como estudos únicos de caso e assim consegue acalentar a alma, em uma terapia de choque em que somos convidados a participar. Como amigos, cúmplices e familiares. O documentário em questão aqui é um relato duro de uma vida cruel. Uma triste existência. De sua mãe, o norte, sul, leste e oeste e que talvez o tenha salvo de uma vida ainda mais complicada.

“Elegia de um Crime”, exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2018, que integra o último filme da “Trilogia do Luto”, que iniciou em 2007 com o média-metragem “Construção”, sobre a morte de seu pai, que fora pedreiro, e foi seguida por “Mataram Meu Irmão”, de 2013, é acima de tudo uma homenagem a sua mãe Isabel, que o acolheu de braços abertos e amor incondicional. Uma forma de perpetuar esse seu amor, interrompido por uma tragédia aos cinquenta e dois anos. Sua câmera é sua arma. Sua justiça. Cristiano poderia sentar, chorar e sentir tristeza. Mas prefere expressar, com confiança, tudo isso não sozinho, compartilhando lembranças com todos nós. Seus cúmplices, terapeutas, ouvintes e amigos.

Na narrativa, dividida em entrevistas com familiares, com a repórter que fez a matéria na época e com a investigação à procura do culpado, o conteúdo e a emoção despertada é muito mais importante que sua forma. É um cinema direto. Urgente. De resgatar a verdade no instante memorado.

É um filme sobre o futuro. Sobre nunca esquecer seus mortos, igual à experiência da Festa dos Mortos da Cidade do Mexico. Seus entrevistados podem confessar e limpar seus sofrimentos e feridas ainda abertas. É uma terapia cognitiva da libertação.

Em fevereiro de 2011, a mãe do diretor Cristiano Burlan foi assassinada em Uberlândia pelo parceiro. Isabel Burlan da Silva teve sua trajetória marcada pela violência e pela pobreza, assim como todo o resto da família.

No dicionário, a palavra elegia significa um “poema composto de versos hexâmetros e pentâmetros alternados” e também um “poema lírico de conteúdo, geralmente, triste e ou melancólico” e uma “canção de melodia e ou letra triste; de lamento ou canto triste”. Sim, estas definem precisamente o tom objetivado deste documento, que busca tranquilizar a própria existência pelo confronto orgânico, amador, catártico e de choque passional. É uma ode à dor para reencontrar a paz eterna.

“Elegia de um Crime” embarca em uma jornada road-movie (“em busca do passado e da memória”) com o intuito de reconstruir a imagem e a vida da mãe (e a história deles), que “está agora em fuga em um lugar seguro”, depois da “vida dura que levou”. Para assim “refazer os passos” para eternizar outra lembrança com novas imagens menos aterrorizantes. O diretor, com consciência dilacerada, “que deveria protegê-la, se tornou testemunha”, sente a dureza de que “só há um destino e que não consegue mudar isso”. “Meu primeiro ímpeto no seu enterro foi filmar você”, ele diz e ficou “impactado”. “Não conseguia chorar e pensava que só deveria filmar”.

Entre conversas que contam causos e mostram fotos, o documentário, que se caracteriza principalmente pelo compromisso da exploração da realidade, é também um instrumento policial de utilidade pública, que ao investigar e seguir pistas do paradeiro do assassino, pode salvar novas vítimas. Há crítica à burocracia da segurança; há verdade sem limites quando fragilidades são expostas e há uma liberdade criativa em ressignificar intimidades.

Respostas são buscadas e re-acordadas ao entrar na selva do sofrimento. Cristiano Brurlan precisou desvencilhar-se da realidade para que fosse possível registrar sem a interferência do pessoal. Sim, é complicado e impossivelmente separatista. Assim como o filme “Elena”, de Petra Costa, “Elegia de um Crime” é inerentemente introjetado.

É o subgênero que chamamos de “necropsia particular”, uma descarrilho-autópsia de uma viagem sem volta. O conhecer faz sofrer e fortalecer. Este é seu renascimento. Ir ao encontro de algo que deveria estar escondido e de encontro às prisões que matam por um homem que ainda se encontra solto. E mesmo assim, talvez para se auto-proteger e quem sabe o espectador, o diretor, filho em luto, optou por “não mostrar as coisas como realmente são, porque senão seriam insuportáveis de ver”.

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