O Voo do Elefantinho

Por Fabricio Duque


Walt Disney em 1941, no meio da Segunda Guerra Mundial, apresentou “Dumbo”, animação que tinha o objetivo de suavizar o mundo ao redor com fantasia e esperança e, principalmente, servir como uma sutil crítica às questões sociais, como a do empregador versus empregado.

Esta parábola fabular, em que o protagonista é um elefante de circo, busca transmitir também uma positiva mensagem de que nem tudo é o que parece ser e que uma anomalia genética pode se transformar em habilidade. O filho da senhora Jumbo talvez seja um mutante “X-Men”.

Tim Burton, após ter transformado o desenho “Alice no Pais das Maravilhas” (também da Disney) em Live-Action, que consiste em personificar os seres animados, aceitou a missão de dirigir a nova versão de “Dumbo” também na técnica acima que fornece realidade paupável à animação. E só por isso já foi um ativador da ansiedade cinéfila, que enxergava como combinação perfeita e indiscutível de seu diretor e o paquiderme mais famoso da história do cinema.

Mas a expectativa deixou a desejar, única e exclusivamente pela comprovação definitiva de que o mundo mudou. O hoje está mais limitado. Se no Dumbo de lá, estava bêbado, e imaginou elefantinhos rosas, no daqui, o contato com a bebida alcoólica não é mais permitido.

E os elefantes imaginários transformaram-se, fora de tom e de contexto, em um artístico espectáculo, à moda de Cirque du Soleil. Sim, o mundo mudou e muito, tanto que alguns anos antes, na comemoração de trinta anos de “ET – O Extraterrestre”, Steven Spielberg precisou mudar elementos cênicos, substituindo armas de policiais por cassetetes.

O “Dumbo” de agora é a representação americana do politicamente correto, que não mais pode lidar com conflitos e que precisam estar escondidos em suavizações moralistas, reverberando a sensação de que este é o retrato do mundo atual em que vivemos e que estamos deixando a nossos filhos, o futuro e o progresso. Mitiga-se a magia da fantasia e se potencializa o tom realista.

1919, Joplin, Estados Unidos. Holt Farrier (o ator Colin Farrell) é uma ex-estrela de circo que, ao retornar da Primeira Guerra Mundial, encontra seu mundo virado de cabeça para baixo. Além de perder um braço no front, sua esposa faleceu enquanto estava fora e ele agora precisa criar os dois filhos, perspicazes e ávidos por descobertas físicas (“metodologia científica”). “A primeira regra da ciência é ter interesse”, diz-se.

Soma-se a isso o fato de ter perdido seu antigo posto no circo, sendo agora o encarregado em cuidar de uma elefanta que está prestes a parir. Quando o bebê nasce, todos ficam surpresos com o tamanho de suas orelhas, o que faz com que de início seja desprezado. Cabe então aos filhos de Holt a tarefa de cuidar do pequenino, até que eles descobrem que as imensas orelhas permitem que Dumbo voe.

“Dumbo” reitera a característica principal de Tim Burton, que é imprimir em suas personagens uma lúdica, intrínseca e orgânica melancolia, uma resignada ingenuidade e uma pureza desanimada (com um que de Ursinho Pooh, especial em “Christopher Robin”). Cada uma vivencia uma jornada de adentrar sonhos reais, de imergir do próprio eu interior. E de novo, o mundo mudou ainda mais. Não há mais espaço para sutilezas e inferências filosófico-existencialistas. Tudo é apressado e urgente. E um filme de muitos e inúmeras questões.

É uma autêntica e crível viagem deleite aos olhos pelos efeitos-especiais que recriam mundos e sensações emocionais com perspectivas do sentir, por exemplo, pelo subjetivo ângulo de câmera que convida o espectador a participar, principalmente pela sentimental música. É um expansivo e majestoso épico sobre a “estrada que leva ao lar” e a “chave para as portas”, por curiosas histórias.

O longa-metragem é também sobre o maniqueísmo das índoles humanas. A personagem do ator Danny DeVito, o excêntrico dono do circo, representa a soberba e a ganância (tudo pelo entretenimento) ao “manter as jaulas fechadas” (todos estão presos ali e são práticos para sobreviver), povoado de “nova fêmea asiática velha” grávida de uma “aberração baby monster”, apenas por sair do padrão e ter orelhas grandes.

“Dumbo” é apresentado em uma atmosfera plástica das cores poéticas de um céu distante a um submundo noturno de convivência cruel e hostil dos outros na defensiva. É também sobre a família, de uma mãe que chega a surtar violentamente para proteger seu filho. Nós sentimos as sutilezas de olhares tristes. Constrói-se, por simbolismos, a emoção, a responsabilidade moral e a permissão de “vingancinhas”. Essa foi a primeira parte.

A segunda parte do filme, lembrando um “O Rei do Show”, de Michael Gracey, com “Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível”, de Brad Bird, adentra no paralelo misticismo ilusório da Dreamland (que pode ser uma alusão a Disneyland – seria essa uma auto-crítica?). Que permite a volta à infância. A uma inocência perdida. Sonhos e esperanças versus fatos da própria vida.

A narrativa torna-se mais estética e mais elegante, em seus grandiosos números musicais. Mas também bem mais sentimental. Dumbo ganha o mundo para encontrar a mãe. Lugar este dominado pela personagem do ator Michael Keaton, que interpreta um que de um carrancudo e cruel Walt Disney e seus oportunistas acordos sem humanidade.

É. Falta algo em “Dumbo”. Emoção e ou magia. Opta-se por engessar e contemplar com afobação superficial, urgência descuidada e redenção a fim de completar o andamento do roteiro, facilitador e burocrático, que segue o ciclo da vida à moda de “O Rei Leão”, os levando a seus habitat naturais.

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