Pastiche de pastiche

Por Vitor Velloso


Determinados projetos buscam uma narrativa-jornada que não possui um fim claro, é um eterno caminhar que terá sua conclusão apenas quando algo desviar o caminho. E existe uma convenção mercadológica que transforma essa ideia num ciclo dramático, ou anti-dramático, onde a encenação fica a par da jornada, não há uma construção da misancene pré concebida, normalmente.

“Alaska” é dirigido por Pedro Novaes e conta a história de Fernando (Rafael Sieg) e Ana (Bela Carrijo) que realizam uma viagem em direção às Chapadas dos Veadeiros. A partir de alguns diálogos, entendemos que ambos já tiveram um caso, que acabou de maneira parcialmente traumática. Essa viagem seria uma espécie de reencontro depois de tanto tempo afastados.

Quando a narrativa se inicia, existe uma certa agilização da dramatização dos personagens, desta maneira são vozes das ligações entre eles combinando tudo, quando na imagem, ambos já estão viajando. A estratégia funciona parcialmente, visto que é possível se perder brevemente qual o grau de relacionamento eles possuem e para resolver estas questões ele utiliza alguns diálogos expositivos no início, a fim de situar o espectador. Acontece que esse período onde a imersão na obra é permitida, torna-se difícil se conectar com os personagens ou mesmo a região por onde eles andam, pois essa tentativa de resumir os dramas no início já afasta o público.

Uma questão do filme é como Novaes joga no seguro e parece aceitar uma certa média dentro da estética, não há grandes erros, nem grandes acertos. E esse marasmo estético, narrativo, dramático e toda sua misancene é o mesmo até o fim. Vai do nada a lugar nenhum. Assistimos ao longa todo para compreendermos que as intenções são pouco honestas, nada é original aqui, nem mesmo os sentimentalismos que os personagens parecem evocar. Os atores se esforçam para trabalhar com aquilo que tem em mãos, são diversas cenas soltar, assim como num road movie, mas aqui não é a jornada que modifica os personagens, as breves histórias são exposições do passado de algum deles. E Novaes trabalha este passado como ciclo, ele traz à tona sempre que possível buscando essas sombras nos personagens. Esse jogo assassina o ritmo do filme, além de expôr todos os dispositivos que o diretor pretende usar, tornando tudo previsível demais, inclusive suas decisões. Funcionando em torno dessa lógica literalmente até o último minuto, será difícil segurar o espectador até o fim.

A fotografia tenta manter o ar naturalista o tempo inteiro, algo que faz todo aquele drama perder força, já que os diálogos e a narrativa não conseguem sustentar peso algum. Este modelo vem se tornando comum no cinema nacional, uma síndrome de “arthouse” que afetou parte das produções independentes. Não funciona do mesmo jeito que os gringos buscaram impor, partiu de dentro. Uma busca por uma identidade que se diferencia do grande mercado brasileiro e tenta uniformizar esta luta a partir de uma estética e forma narrativa. Curiosamente essa emancipação que busca a autoria acima de tudo, falha copiosamente, pois estar fora do vulgo “cinemão”, não te faz autor. Também não vale tentar definir a autoria aqui, já que o assunto em si seria impossível sintetizar em uma crítica. Mas as próprias noções de estilo que determinados diretores têm como parte da autoria, pode ser correta num primeiro momento mas a partir do momento onde cria-se uma indústria de cópias de um clubismo falido, essa ideia vai por água abaixo. Não confunda temática e preocupações similares, com composição, iluminação etc.

“Alaska” não é um desastre completo pela dupla de atores e alguns enquadramentos que introduzem ao campo narrativo o regionalismo, algo que sempre devemos prezar. Mas no fim, ele não chama atenção pra nada, nem torna-se uma experiência ruim, mas é tão blasé, tão indiferente que entristece ver um projeto com boas intenções falhando desta maneira, mas não há quase nada para ser dito aqui. Infelizmente, pois algumas lutas por emancipação mercadológica no Brasil atual são fracassadas antes de chegar às salas de cinema, que não é o caso deste filme. Torço que não seja um fracasso de bilheteria e garanta um próximo longa de Novaes, quero saber seus outros olhares.

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    O filme é um desastre. Roteiro sem graça e entediante, direção fraca, cortes mal feitos, fotografia apagada, ….tudo. Eu diria pueril.

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