De Santiago para Los Angeles

Por Vitor Velloso


Sebastián Lelio, chileno, mostrou sua força cinematográfica com “Mulher Fantástica” (2017), que lhe rendeu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Desobediência (2017) causou pouco impacto, possivelmente pelo ofuscamento que seu outro projeto gerou. Mas anteriormente ele já havia chamado atenção com alguns projetos, “Gloria” (2013) e lá atrás demonstrou algum diferencial com “La sagrada família” (2005). E agora em 2019, o diretor retorna a Hollywood, agora com apoio da prestigiada A24, para refazer “Gloria Bell”, agora em língua estrangeira.

Julianne Moore assume o papel que anteriormente foi de Paulina Garcia, a personagem que dá nome à obra. A qualidade da atriz americana é inegável, ela possui uma presença em cena que poucas pessoas no cinema contemporâneo se aproximam. Além disso, consegue manter um carisma que atrelada a sua auto-estima compõe uma protagonista viva e apaixonante, porém, a construção que o diretor realiza, com sua encenação e perspectiva de contar a história, traz um fator imprescindível à dramatização do longa, sua ambientação. Não necessariamente a direção de arte, mas as locações de fato. Quando colocamos na balança toda a misancene que Lelio cria e comparamos Los Angeles e Santiago, chega a ser vergonhoso pros norte-americanos. A discussão aqui não trata-se da cidade em si, mas de toda uma arquitetura que coincide com a protagonista, um arcabouço cultural que sustenta quase isoladamente as decisões narrativas. E a conjugação entre Gloria e Santiago, era de uma organicidade tão intensa, mas fluída que não sentíamos nenhuma aversão cultural ou regional àquela ambientação, pois além da direção de Lelio estar mais segura, em casa, Echazarreta (diretor de fotografia), “Mulher Fantástica”, era perfeito no projeto, conciliava uma determinada liberdade com aconchego. A direção de fotografia de “Gloria Bell” fica com a talentosíssima Natasha Brier (“Demônio de Neon” e “The Rover”), mas não há uma sincronia tão orgânica quanto no longa anterior. A estética assumida aqui é potente, porém a espiritualidade original dá lugar à um falso naturalismo misancênico que está repleto de artificialidades tanto no uso da luz, quanto na própria cidade.

Ao invés de Rodolfo (Sergio Hernández), agora temos Arnold (John Turturro). E a mudança afeta mais a construção narrativa que propriamente o andamento que o diretor propõe, pois Turturro é detentor de um carisma canastrão único na indústria.

Agora, a reflexão da negação das comparações entre os dois filmes, é justa, aliás, são cinco anos de diferença entre os lançamentos de ambos, sem contar a óbvia distinção nos países onde cada um foi realizado. Ainda assim não dá pra negar que projetos como “Gloria Bell” são realizados a fim de americanizar narrativas bem sucedidas realizadas fora da terra do Tio Sam. Está longe de ser a primeira vez que vemos isso na indústria norte-americana e não será a última. O termo “whitewash” foi criado para caracterizar este tipo de projeto, que não se aplica plenamente aqui.

Porém, assim como no original a força da obra se encontra na protagonista, toda sua presença em cena, carisma, auto-estima, um retrato contundente de uma mulher na faixa dos 50 anos que busca uma aceitação própria muito à frente da coletiva. Ainda assim, é mais fácil aceitar isso em uma realidade onde Gloria é interpretada por Julianne Moore… Voltando. A potência feminina que está na tela, é exterior à direção, ainda que compreendida por esta, mas a dependência do roteiro e espectador de manter esse brilhantismo na personagem depende diretamente de Julianne Moore e isso ninguém pode tirar dela. Escutei alguns comentários breves e abafados, que acham interessante, Lelio permitir suas personagens femininas se manifestarem como forças da natureza, ora, tudo bem que ele escreveu a personagem, mas a manifestação direta desta avassaladora protagonista está acima da criação original. E ela não precisa pedir permissão para que brilhe, pelo contrário, o diretor quase que pede para filmar tamanha força.

No fim das contas o longa não é necessariamente fraco, porém carece do conforto onde o primeiro foi realizado. E esse sentimento influencia diretamente o resultado final, já que a linguagem e o drama gira em torno dessa construção sentimental. Ainda assim Lelio demonstra novamente seu talento em compor o filme em volta de suas personagens.

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