Onde tudo começou

Por Pedro Guedes


Em 1980, o Festival de Veneza recebeu a visita do gênio Glauber Rocha, que, na ocasião, estava lançando o último e, talvez, o mais polêmico filme de sua carreira: “A Idade da Terra”. Ao ser entrevistado para o “Fantástico”, o cineasta comentou as reações divididas que o longa despertou e a ausência de uma narrativa estruturada de maneira “correta”, dizendo ainda as seguintes palavras: “Não dá para contar porque não tem o que contar. Cinema é para ver e para ouvir. O diretor não deve falar do filme, não.

Em outras palavras: se o espectador recebe uma obra aparentemente indecifrável, fragmentada e que não oferece respostas fáceis, o diretor não deve ficar expondo suas intenções através de um didatismo óbvio. O Cinema é uma Arte audiovisual que, como tal, permite que os realizadores aproveitem e explorem sua linguagem – e o fato de não have necessariamente uma historinha a ser contada não implica em um problema imediato, já que a obra pode, sim, se propor a ser uma experimentação estética.

Isto fica claro ainda no início da carreira de Glauber Rocha, que começou a dar seus passos grandiosos com “Pátio”, um curta que dura ligeiros 12 minutos, mas que causa uma impressão forte o suficiente para permanecer na cabeça do espectador por um bom tempo. Constituído basicamente de vários fragmentos que mostram plantas, ladrilhos xadrezes e um casal se deslocando, este é o trabalho que deu o pontapé numa das filmografias mais poderosas e importantes da História do Cinema brasileiro. Não, minto: da História do Cinema. Ponto.

No entanto, “Pátio” talvez não seja o filme que represente a magnitude do conjunto da obra de Glauber (sim, vou chamá-lo apenas pelo primeiro nome, pois o meu costume vai além de qualquer formalidade ou intimidade que pudesse ter com o sujeito). Sem depender de uma trama ou mesmo de uma situação bem definida, o curta é mesmo uma experimentação na qual o diretor emprega conceitos idealizados pelo construtivismo de Serguei Eisenstein e se preocupa mais com questões formais do que com regrinhas batidas e convencionais. Há quem acuse “Pátio” de ser “sem sentido” ou “sem conteúdo”, mas o fato é que o formalismo adotado por Glauber constrói o sentido e o conteúdo por conta própria.

Alternando entre fragmentos de maneira que pode parecer aleatória, mas que certamente foi pensada com cuidado e conta com uma lógica interna, o curta é particularmente eficiente ao envolver o espectador em uma atmosfera enérgica, intensa e pulsante – mesmo sem deixar claro o que, de fato, está acontecendo. Assim, o trabalho de Glauber em “Pátio” faz jus aos conceitos de montagem rítmica, tonal, métrica e intelectual que Eisenstein descreveu, saindo-se bem ao intercalar imagens tão distintas (plantas; ladrilhos; céus; paisagens; detalhes dos corpos do casal; duas pessoas atiradas no chão) com uma frequência cada vez maior em uma passagem específica que se propõe, entre outras coisas, a fazer o espectador se sentir inquieto.

Há também uma clara sensação de incômodo que persegue os personagens do início ao fim: desde o momento em que chega ao pátio, o casal se vê continuamente torturado pela condição que lhes foi imposta, como se fossem limitados por aquele espaço e tivessem sido condenados a permanecer ali por tempo indefinido – algo que, mais uma vez, é ilustrado perfeitamente através da direção e da montagem, alternando entre as reações sofridas dos personagens e imagens aparentemente prosaicas. O que não impede o casal de ainda se identificar como tal, culminando em um plano-detalhe no qual as mãos do homem e da mulher se esticam até que finalmente se encostem.

Não é uma obra fácil ou que tenta martelar ideias óbvias na cabeça do público; na verdade, “Pátio” é mais um prato cheio para que o próprio Glauber brinque e experimente com os recursos de linguagem, estética e forma que estão em suas mãos. Além disso, a trilha musical acerta ao investir em tambores frenéticos e numa identidade tribal que contribui para que o espectador se sinta ainda mais envolvido pela potência do que está diante de seus olhos, complementando a experiência sensorial representada pelo curta.

É difícil dar nota para um filme como “Pátio”, pois Glauber traça e cumpre seus objetivos de maneira correta. Em contrapartida, é provável que a experimentação, em si, tenha servido mais para o próprio Glauber do que para o público, apresentando um conteúdo que, de fato, não se destaca – e o mais curioso é que isto não é necessariamente um problema, já que, como foi dito anteriormente, o Cinema pode se resumir a um esforço técnico/estético/formal sem se preocupar tanto com um conteúdo digerível.

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