Muro do Peele

Por Vitor Velloso


No confronto texto x imagem, há sempre uma violenta refrega que deve ser sabiamente contornada pela verve do autor que a ampara, pois criar interdependência é de uma limitação fúnebre. Jordan Peele não é necessariamente o mestre dessa concepção que agrega os dois âmbitos do processo cinematográfico, longe disso, ele sempre deixa uma fresta para que uma das estâncias se sobressaia, permitindo que algum elemento atropele o outro. E por isso Peele, é do caral….

O brilhantismo de suas soluções estéticas e narrativas, é adicionar à equação um elemento a mais, a realidade, ou o espelho que a transmite, aliás, o conceito de real é bastante vago. Porém, acima de qualquer realidade, seja da clássica dramatização norte-americana (que ele tira sarro constantemente) ou da desconstrução narrativa com um didatismo sonífero (Nolan), a realidade negra. Porque além de termos um excesso de brancos assumindo às telas, somos obrigados a ver o protótipo do grande salvador branco, no melhor estilo do Manifesto do Homem Branco, buscando a emancipação do corpo negro. Jordan junta Lupita, Winston Duke, Evan Alex e Shahadi e manda todo mundo pra casa do… Trump, com bastante educação, claro.

Mas afinal U.S ou Us ou Nós, é sobre o que? Traçar a trama durante a crítica é sabotar a reflexão acerca do longa e a experiência de quem está lendo e ainda não viu o filme.

Peele cria uma obra tão potente e multidimensional quanto “A noite dos Mortos Vivos” de George Romero, porém, mais direto. Ele consegue conceber uma ficção que compreende as vulnerabilidades das discussões sociais nos EUA, relacionando o próprio progresso de sua narrativa às respostas possíveis, com perguntas provocativas. Sem ser maniqueísta ele conduz o espectador a um pesadelo onde a moral e a ideologia ruíram, resta apenas a sobrevivência, contudo, as ações possuem reações, e o roteiro dele não permite que suas discussões políticas sejam drenadas pelo atual momento do país. Desta maneira, os rejeitados pela sociedade retornam, não de forma figurativa, mas por completo, atinge o cerne da idealização de um levante social com uma construção apocalíptica que resulta na maior canalização de bloqueio à sociedade branca. Não trata-se de justiça ou vingança, apenas de fatos e acontecimentos de uma realidade negligenciada por todos, em especial o cinema. A farsa se une ao real no melhor estilo do diretor.

O mito fundador da cultura norte-americana possui seu cordão umbilical rompido pela sutileza agressiva do autor. Curiosamente ele faz isso sem nunca perder seu icônico senso de humor, sendo ácido nos momentos certos em prol de uma desestruturação dramática que seria padrão em projetos do gênero. Sua direção é pontual, consegue transmitir um impulso de adrenalina ou aconchego em situações sempre ambíguas, já que o repertório do espectador vai sendo construído através das imagens apresentadas anteriormente, da fotografia de Mike Gioulakis, que realizou “Vidro”, “Under the Silver Lake”, entre outros) e da trilha sonora de Michael Abels (Corra!). E esse clima de ficção dentro do processo de ficcionalização, que gera uma experiência hermética é sempre atravessado pela crua realidade que Peele impõe em seus debates contemporâneos, acerca da multiplicidade dos tempos atuais ou mesmo das questões sociais. Aliás, essa questão de reprodutibilidade constante das falas e das imagens em um mundo onde a cópia e os factóides dominam os acontecimentos é um assunto que “Corra!” já possuía.

Se a covardia da política atual e todas suas contradições utilizam de meios midiáticos e publicitários a fim de desviar a atenção de polêmicas que lesam a sociedade ou mesmo a legislação, Peele não evita pôr o dedo na cara dos engravatados disseminadores de ódio, pelo contrário ainda faz alusão a determinadas políticas de Estado dos mesmos. O muro de Trump não escapa. A irrealidade de tudo que acontece durante a projeção de “Nós” permite tudo e nada nos soe estranho ou familiar, os sentimentos se sobressaem com tanta facilidade que o espectador se pergunta o tempo inteiro a veracidade daquilo que está na tela.

Além da atmosfera inquietante e volátil do filme, é notória a habilidade do diretor em compensar seus momentos mais claustrofóbicos às externas, porém, sem nunca perder seu tom, isso porque além de jogar com a percepção e expectativa do espectador, ele conduz por meio de seus enquadramentos e da fotografia de Gioulakis uma constante que nunca se perde, sempre entre a perda total do controle e o escalonamento absoluto de seus planos. Esse exercício que normalmente é passivo de equívocos, de grandes diretores inclusive, não é permitido por um cineasta que faz seu segundo longa. Nicholas Monsour, montador, havia dois projetos de longa-metragem na carreira, ambos duvidosos, mas demonstra uma habilidade cirúrgica em compensar os movimentos e a construção de quadros, com a tensão latente do filme.

Quanto aos atores, bom, Lupita Nyong’o é indiscutivelmente uma das melhores atrizes dessa geração, e aqui interpreta Adelaide Wilson, a protagonista. Uma mulher com um trauma muito grande em seu passado, que agora possui uma família estruturada, que construiu ao lado de Gabe, vivido por Winston Duke que possui um carisma inegável e nos presenteia com uma atuação redonda. O filhos, Evan Alex (que interpreta Jason) e Shahadi (vive Zora Wilson) cumprem bem seus papéis sem destaque especial para algum especificamente.

Sem dúvida “Nós” será um dos maiores filmes do ano. E escrever uma crítica sobre ele, acredite, não é fácil. Fora os argumentos comuns de simbolismos e significações, enquanto cinema em si, isso aqui é um nível acima das produções comuns de Hollywood. E que venha mais um Oscar de roteiro.

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