A Arte e a fraude

Por Pedro Guedes


“Minha Obra-Prima” começa com a imagem de uma pintura colorida, rebuscada e charmosa de um indivíduo centralizado na parte inferior do quadro, ao passo que o voice over de uma mulher pede para que o espectador passe alguns minutos observando, analisando e interpretando cada nuance da ilustração (a seguir, descobrimos que a voz pertence à funcionária de uma galeria, que está se comunicando não apenas com os visitantes daquela exposição, mas com o espectador que está assistindo ao filme). Só com essa abertura, o diretor Gastón Duprat (“O Cidadão Ilustre”) já consegue deixar claras as intenções do longa e boa parte dos temas que serão discutidos na próxima uma hora e meia – aliás, existem trechos de “Minha Obra-Prima” que soam levemente como ecos do sueco “The Square”, que lida com algumas questões similares.

Escrito por Gastón e Andrés Duprat (sim, eles são irmãos), o filme gira em torno de Arturo, um negociante de Arte que vive trabalhando numa galeria, vendendo/comprando obras e organizando mostras e exposições. Ao mesmo tempo, o sujeito é amigo íntimo de Renzo, que há décadas vive pintando quadros que não chamaram a atenção de muitas pessoas e se sente subestimado pela sociedade em geral. Eis que chega um dia onde Arturo e Renzo decidem inventar uma estratégia absurda e ousada para impulsionar o trabalho do pintor e a movimentação na galeria do negociante, fazendo jus a uma série de questões éticas, morais e conceituais que há séculos geram discussões dentro do mundo das artes.

A partir daí, o longa faz um bom trabalho ao discutir um assunto que, de um ponto de vista narrativo, é sempre promissor: a fraude. Uma mentira pode ser considerada uma forma de Arte? Sim – se é eticamente aceitável ou não, é outra história. Logo nos primeiros minutos da projeção, Arturo diz que Buenos Aires é “A melhor cidade do mundo, mas também é paradoxalmente a pior cidade do mundo” e enfatiza o fato de que, para enxergá-la com bons olhos, é preciso fazer vista grossa para sua realidade dura e complicada. Isto se interliga diretamente ao desfecho da obra, que traz dois personagens arquitetando uma grande mentira para que possam ser reconhecidos de uma forma ou de outra – e por mais imoral ou antiético que possa ser, a mentira em si foi construída de maneira engenhosa. A farsa é uma Arte e, neste sentido, Arturo e Renzo são artistas eficientes, embora a sociedade custe a reconhecê-los (para o bem ou para o mal).

Discussões artísticas à parte, “Minha Obra-Prima” não é particularmente genial ou inovador ao desenvolver seus temas, destacando-se graças ao senso de humor que toma conta da direção de Gastón Duprat e, claro, à dinâmica entre os dois personagens centrais: contando com personalidades contrastantes, mas que se interligam através de pequenos pontos em comum, Arturo e Renzo podem até levantar o tom de voz um para o outro, mas o fato é que são bons amigos que funcionam bem em conjunto. Além disso, Guillermo Francella é bem-sucedido ao retratar Arturo como um sujeito que se esforça para manter uma postura culta e elegante, mas que acaba cedendo aos seus desejos e frustrações particulares, ao passo que Luis Brandoni encarna Renzo como um artista convencido de seu talento não reconhecido e excessivamente apegado aos seus ideais, o que rende sequências divertidas como aquela em que “moderniza” uma de suas obras de forma surpreendentemente grosseira e inusitada.

Por outro lado, a necessidade que o filme tem de abraçar o absurdo até as últimas consequências tende a prejudicá-lo em alguns momentos – e a cena em que Renzo se recusa a pagar a conta de um restaurante pode até ser divertida, mas não faz o menor sentido. E se a primeira metade do longa conta com um ritmo consistente, a segunda se revela um pouco mais inconstante, alongando-se em situações que parecem ter sido jogadas quase que ao acaso no meio da narrativa. Em compensação, a conclusão da história compensa os probleminhas que vieram anteriormente, complementando bem as discussões que o roteiro havia levantado desde o primeiro ato.

Dito isso, “Minha Obra-Prima” pode não ser a obra-prima que seu título sugere, mas ainda assim é uma comédia eficiente e que, de quebra, pinta (com o perdão do trocadilho) um panorama breve, porém divertido a respeito da fraude e da Arte.

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