Uma ideia jogada no lixo

Por Pedro Guedes


O pior tipo de filme não é aquele que o espectador apenas reconhece como ruim, mas aquele que claramente tinha potencial para ser muito melhor do que acabou sendo. É neste segundo espectro que se encontra a dramédia “Chorar de Rir”: em seu primeiro ato, o filme propõe algumas discussões interessantes e promissoras a respeito do desprezo que a comédia costuma receber por ser mais popularesca, contrapondo, no processo, a imagem exagerada e histérica que Leandro Hassum preserva na maioria de seus projetos; à medida que a narrativa avança, porém, a obra aos poucos vai jogando suas boas ideias no lixo e se assumindo de vez como mais uma produção genérica, sem graça e tola, seguindo de perto a fórmula que transforma as comédias ruins da Globo em sucessos de bilheteria.

Concebido quase como uma espécie de “Birdman” brasileiro, trocando apenas os super-heróis pelos comediantes (dois segmentos que, sim, costumam ser enxergados como um Cinema “menor”, pois contam com um apelo popular mais frequente), “Chorar de Rir” conta a história do bem-sucedido Nilo Perequê, que, depois de vencer o Prêmio Vitória-Régia de melhor comediante, constata que a indústria e o meio acadêmico jamais o levarão a sério nem o encararão como ator “de verdade”. Assim, Nilo decide se reinventar no Teatro, protagonizando uma nova versão de “Hamlet” – o que, no entanto, resulta em um desastre absoluto, pois qualquer coisa que o comediante tente fazer levará seu público às gargalhadas. A partir daí, entram alguns detalhes que não seriam necessariamente spoilers se o filme não fizesse questão de introduzi-los depois da metade da projeção, então… vou mantê-los em sigilo, mesmo reconhecendo que são importantes para a trama.

Sim, havia potencial nesta premissa. Aliás, o primeiro ato quase convence o espectador de que o projeto se confirmará como uma dramédia que trará Leandro Hassum para fora de sua zona de conforto, já que o ator se encontra mais sério e sofrido que o habitual e chega a fazer algumas piadinhas autorreferenciais (“Você faria sucesso como comediante se fosse gordo. Não sei nem como eu consegui ser engraçado sendo magro.”). Mas aí chega um momento em que algo acontece e o protagonista se vê incapaz de manter uma postura contida – e, a partir daí, Hassum volta a ser o mesmo de “Até Que a Sorte Nos Separe” e “O Candidato Honesto”, limitando-se a gritar, fazer caras e bocas, falar rápido, afinar sua vez e se contorcer histericamente. Desta maneira, o longa praticamente nega ao ator a oportunidade de compor uma performance diferente das que dominaram o resto de sua carreira, culminando em um desperdício lamentável.

Mas o desempenho de Hassum não é o único que começa bem e termina mal: no primeiro ato, o diretor Toniko Melo até surpreende com uma ou outra composição imagética razoavelmente elegante, como aquela onde a câmera acompanha uma conversa entre Nilo e seu empresário através de um plano longo, porém movimentado. Em contrapartida, é difícil perdoar um filme que chega ao cúmulo de incluir um zoom obviamente criado durante o processo de montagem, levando o espectador a se remexer na poltrona do cinema diante de algo tão… tosco – e por falar em montagem, o longa usa e abusa dos cortes na hora de enfocar os diálogos, deixando a impressão de que o montador não soube escolher os planos que realmente deveriam estar na cena e tentou dar um jeito de usar todas as ações e reações que foram gravadas (pensem na infame sequência de “Bohemian Rhapsody” onde o Queen se reúne com um empresário à beira-mar).

Não que o filme funcionasse perfeitamente desde o princípio: o momento em que Nilo percebe que nunca será levado a sério, por exemplo, começa com uma produtora do Prêmio Vitória-Régia dizendo algo como “Ok, agora vem os prêmios principais… Acabou

essa palhaçada (os prêmios para a comédia)”; logo depois, vem uma cena onde o protagonista, trancado no banheiro, entreouve um diretor e um ator conversando sobre como comédia não deve ser considerada Arte e como as pessoas riem não da composição de Nilo, mas das piadas que saem de sua boca; e esse tipo de artificialidade se mantém até os segundos finais da narrativa. Para piorar, a trilha musical é uma daquelas que fazem questão de mastigar todas as sensações que deverão tomar conta do espectador do início ao fim, acompanhando toda e qualquer reação ou piada com uma melodia subitamente engraçadinha (isso sem contar as cenas dramáticas, que são sempre ilustradas a partir dos violinos e pianos mais cafonas do mundo).

Exibindo um mau gosto notável ao incluir piadinhas envolvendo mulheres, pobres, gordos e macumbeiros, “Chorar de Rir” revela-se cínico ao trazer Nilo fazendo uma boa ação (colocar um sorriso no rosto de certa pessoa) mais por necessidade própria do que por vontade de ajudar o próximo. Além disso, o filme não parece se dar conta do quanto colabora para que a comédia continue a ser vista como um tipo de Arte “menor”, já que o objetivo do protagonista é se provar como ator dramático – e se você está pensando que o final levará Nilo a perceber que isto não é necessário, já que seus talentos como comediante são mais do que suficientes para estabelecê-lo como um artista tão admirável quanto os dramáticos, então reconsidere suas previsões, pois o máximo que ocorre é um discursinho motivacional capenga que não surte o efeito esperado.

Desperdiçando até mesmo a presença dos divertidos Rafael Portugal e Caíto Mainier (o primeiro encarna um vilão desinteressante e sem personalidade; o segundo… bem, é o Rogerinho do Ingá colocado para apresentar um programa de fofocas, o que poderia funcionar se o ator contasse com mais tempo de tela), “Chorar de Rir” é uma obra que começa problemática e se torna simplesmente insuportável a partir do momento em que uma reviravolta acontece, atirando no lixo todo o potencial que o filme poderia ter.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados