A ausência do trabalho

Por Vitor Velloso


Enquanto o país vai pro fundo do poço e o cinema brasileiro é empurrado pelo governo na mesma direção, “Jorginho Guinle – $o Se Vive Uma Vez” entra em cartaz buscando contar a história do playboy que nunca trabalhou. Metade ficção e metade documentário, o projeto híbrido narra parte da ascensão da fama de Jorge Guinle, filho de uma família milionária dona de inúmeras empresas e fundadora do Copacabana Palace. Seu sucesso surgiu através de suas conquistas amorosas e por ter torrado todo o dinheiro da família, o que aparentemente era impossível.

O longa dirigido por Otávio Escobar, possui um início desconfortável, pois vemos um efeito especial bastante amador, é a intencionalidade do projeto, mas a narração canhestra, quase como um programa humorístico, com cores à la Casseta e Planeta, não é uma das melhores recepções. Mas passado esse primeiro contato, diversas entrevistas se iniciam e um projeto documental têm seu início, são comentários superficiais e rasos acerca da personalidade de Jorge (Saulo Segreto). Ao iniciar o trecho da ficção que é possível notar o acabamento do filme, são diálogos ultra expositivos, com uma entonação publicitária e efeitos na tela, como uma máscara (que desenha um binóculo na tela) que poderiam ser cômicos se minimamente acabados. A reconstrução de época é confusa, saltando dos dias atuais para o passado utilizando imagens de arquivo pouco elucidativas, além de um uso de preto e branco e efeito de desgaste na imagem filmado à parte ficcional sem a menor veracidade. Caso a farsa seja um argumento utilizado para defender todos estes pontos, ainda há outros.

Todos os atores estão no automático, assim como a fotografia, que apenas aparece a fim de jogar um brilho aqui ou ali para reluzir certos materiais. A direção de Otávio é televisiva, porém utiliza muito os arquétipos das comédias chanchadescas que saturam o mercado brasileiro. O humor utilizado aqui é algo próximo às produções com Leandro Hassum e Gentilli, exemplo em determinado momento Jorginho, criança (Davi Goulart), fala à sua governanta europeia interpretada por Letícia Spiller que deseja pegar os balões que estão caindo em seu terreno, absolutamente imenso, e ela responde que ele deveria deixar para as crianças da rua, na voz de Segreto escutamos o pensamento de reprovação “Ela é marxista”. Aparentemente era engraçado quando alguém leu em voz alta na primeira vez.

Que a vida do protagonista era absolutamente fútil e desprovida de um objetivo que não envolvesse luxo e mulheres, já sabemos, porém, o espectador tem a oportunidade de escutar as pessoas que conviviam com ele, ex-mulher, filho, filha, entre outros. Mais de dois terços dos comentários não passam de “Ah, certa vez bebi um champanhe maravilhoso com ele” “Uma vez em Nova York comi um Fettuccine incrível”. Interessante realmente saber das aventuras de gastos desordenados do que ele comia ou bebia, ainda mais escutar de seus filhos o quanto ele gostava de mulheres, o cinema brasileiro estava precisando.

Esse excesso de futilidade tenta ser recompensado, tanto pelos entrevistados, como pelo cineasta em lembrar constantemente quem está assistindo, que ele gostava de estudar filosofia. Em determinado momento escutamos ele dizer que “deixou de ser materialista dialético, para ser materialista radical” Essa sua “imensa paixão” por filosofia não o permitiu estudar o mínimo a ponto de saber o que era um proletário ou como funcionava um banco. O “gênio” Jorge Guinle, possui uma vida de Rei, segundo as pessoas, e decidiu morrer como tal, quando prefere falecer no Copacabana Palace, pois significava muito a ele, que numa mesa de hospital.

Formalmente o projeto inteiro não é capaz de criar alguma decepção no espectador, pois o mesmo já presenciou os primeiros cinco minutos e pode constatar o que viria a seguir. Mas toda essa tentativa de dramatização da história, a partir de um ponto de vista bem humorado, soa tão oportunista diante da personalidade de Jorge que não há desenvolvimento algum de linguagem. Ainda que a intencionalidade da produção não fosse essa, um mínimo de cuidado e esmero com o resultado final ao menos facilitaria a experiência de quem irá no cinema atrás de um entretenimento.

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