Estrela brilhante

Por Vitor Velloso

Integra a Mostra Estreias Cariocas


O funk é um dos fenômenos mais importantes da história brasileira contemporânea, com sua luta diária de legitimação enquanto ser humano, a resistência que o gênero musical fundou a partir de seu discurso social fixaram na cultura nacional suas vozes e suas batalhas. “Era só mais um Silva” é a síntese de uma população negligenciada pelo Estado, pois revela o cotidiano, os sonhos e os medos do morador comum da favela. Mas vai além, explicita a questão do funk enquanto parte da estrutura local e expõe o preconceito com o estilo.

Dirigido por Marcelo Gularte, tendo sua exibição na Mostra Estreia Cariocas, o documentário irá nos mostrar a história de Moisés Osmar da Silva, o Bob Rum, criador da música “Era só mais um Silva”. Assim como a maioria dos brasileiros sua vida não é um mar de flores e as dificuldades que enfrentou foram frutos da desigualdade que fundou este país. Mas encontrou através da música um meio de crescer na vida e pôr pra fora aquilo que precisava.

O filme busca uma abordagem clássica em sua estrutura, uma escolha sábia já que a intenção é o diálogo direto com o público, pois a identificação que a música já traz deve se refletir na forma fílmica do projeto. Logo, são entrevistas com o nível de conforto bastante cadenciado, respostas que não saem tanto da zona de conforto, buscando uma harmonia maior em toda sua construção, aliás o objetivo está longe de ser uma experiência cinematográfica, portanto não faz sentido desafiar o espectador ou o próprio meio de produção. Um dos trunfos de Cavi Borges, produtor, é a realização destes projetos com uma dialética acessível, através de sua linha mais prosaica. A ausência de uma indústria de cinema no país, criou uma abertura no meio de produção, um vácuo, e Cavi entra na história do cinema independente brasileiro, especialmente carioca, como uma figura de resistência, detentor de um altruísmo único e que se preocupa com a revitalização da memória nacional, não à toa trouxe Luiz Rosemberg Filho e Sérgio Carvalho às nossas telonas novamente. Logo, seus projetos atingem áreas diferentes do mercado, do experimental ao grande público. A excelência da perpetuação dos movimentos e do corpo em uma dança existencial de “Salto no Vazio”, a potência narrativa que fecunda numa profunda experiência sensorial de “Traga-me a Cabeça de Carmen M e agora o didatismo formal que pauta a realidade na voz de mais um Silva.

Esse aconchego de produção e estrutura, gera alguns impasses técnicos na obra. Além disso, algumas entrevistas ficam soltas dentro do todo e não justificam suas permanências. Exemplo, onde um homem diz que Moisés cantou em seu casamento.

Há uma tentativa de localizar geograficamente todos aqueles personagens, o que é compreensível e potencialmente interessante, porém, essas localização fica por conta de drones com imagens pouco originais, de tomadas repetidas aceleradas e uma frágil explicação aos não-cariocas da especificidade de Santa Cruz, onde se passa a maior parte do filme. Mas essas questões não apagam o carisma de Bob Rum, nem mesmo o da produção, claramente guerrilha total. Então durante toda a projeção ficamos acompanhando aquelas pessoas que tiveram que lutar por sua voz, pela simples libertação de seus corpos diante da sociedade, mas que conseguiram alcançar seus objetivos. A animação de todos ao falar do cantor, contagia a imagem e é difícil sair sem um sorriso da sala de cinema.

“O funk não é modismo, é uma necessidade. É pra calar os gemidos que existem nessa cidade”

Este trecho da música, nos revela não apenas como o funk é arte e por isso criação e sacrifício, mas luta social. Se pegarmos o exemplo da MPB ou da Tropicália, veremos a sociedade sendo debatida na voz de uma maioria branca e possivelmente burguesa, já no Funk a situação inverte, a esmagadora maioria negra e pobre irá discursar sobre sua realidade, mas agora, por eles mesmos. A própria criação da postura de combate direto à repressão e ao preconceito, revela parte da estrutura musical do gênero, um ritmo incessante, que não facilita a absorção.

O cinema nacional exibe em tela grande a história de Bob Rum e da dificuldade de legitimar a cultura em um país colonizado.


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