A incompatível arte de ser jovem

Por Fabricio Duque

Integra a Mostra Estreias Cariocas


Sim, o cinema é uma caixa de surpresas e o público nunca sabe o que encontrar. Ou se surpreender. Jean-Luc Godard disse em sua radical frase que a sétima arte morreu, mas o cineasta suíço-francês não se deu conta que a criatividade é um terreno fértil, que nunca acaba.

“O Que Resta”, de Fernanda Teixeira, é um daqueles filmes que conduzem o espectador pela seara da inovação técnica, podendo ser uma abrasileirada referência a filmes do movimento estético pop arthouse cult, este que integra o canadense Xavier Dolan (pela atmosfera jovem blasé), os do argentino Gaspar Noé (pelas cenas de sexo sensorial) e com reflexos em Esmir Filho, e seus “Os Famosos e os Duendes da Morte” e “Alguma Coisa Assim”, e em “Tinta Bruta”, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (pela presença cósmica da música, como por exemplo, “Cavalo”, do grupo Noporn). Narrativamente está mais próximo do universo do seriado “Perrengue” da MTV.

O longa-metragem, exibido no Festival Mix Brasil, em São Paulo, e que agora chega à terra carioca, inverte a percepção do tempo, e, assim, transforma situações dramáticas em fragmentos-contos. Filmado em uma fazenda em Petrópolis, “O Que Resta” quer importar uma atmosfera bucólica de pausa existencial para naturalizar atemporalmente a própria vida, como o tempo de fumar um cigarro, o tempo de uma música e o tempo que dura uma animalesca relação sexual.

Ao imprimir uma fotografia (impecável de Vinicius Brum) saturada e refletida (e realisticamente de uma nostálgica revelação epifania) à artificialidade das cores (de luz sensorial e de sua imperceptível câmera mosca que estende a ação), quase em um vívido neon, em vinte e quatro quadros (que mantém a magia, entre idílica e fantasiosa, entre ruidosos pensamentos e incômodos e defensivos silêncios), sua diretora Fernanda Teixeira, estreante na direção de um longa-metragem (após seus curtas-metragens “Em Cartaz”, “Rendez-vous”), comprova sua predileção a uma obra autoral, ao inverter a linearidade aceita as condições de um caminho sem volta. E assim o público é surpreendido com a escolha inventiva.

Esta inversão de trás para frente, roteirizada por Fernanda e Ismar Tirelli Neto, também pode ser um tiro no pé, porque a consequência natural e esperada é que ritmos sejam rompidos para que um novo possa recomeçar. Mas não é autodestrutivo, pelo contrário, sua contemplação do nada para traduzir o tudo gera a criação de campos de trabalho não são a realidade por completo. Ainda que haja uma certa encenação na química de seus atores, talvez pela dificuldade de criar afinidade no espectador pela recorrência antecipação das cenas.

“O Que Resta” é um mergulho no universo hipster, de jovens moderninhos entre cartaz do filme “Blue Velvet – Veludo Azul”, de David Lynch, que por sua vez ajuda na compreensão de suspensão desta realidade, que vai do silêncio absoluto aos bruscos e banais diálogos. Enquanto uns acordam, outros já estão “calibrados” e “cafeínados”.

É um filme sobre ninguém e sobre todos. Sobre egoísmos subjetivos e sensivelmente dramáticos. Quase conflitantes, visto que o mundo livre que esses seres (que “não imaginam que uma coisa pode durar tanto tempo”) esperam, acaba por ser abalado, principalmente por suas modinhas e passionalidades apegadas e mundanas.

Este é um filme de amigos, reunidos no meio do mato em uma “aristocrática Casa Grande”, em tempos retornados, corpos encontrados, vícios permanecidos. Atolados em um trabalho (“emprego que já é a morte”) que detestam e esgotados (“serem tirados da morte e obrigados a viver”) por todas as imposições sociais que os cercam (“desacostumados de coisa boa”), Bárbara (a atriz Renata Guida) e Luiz (o ator Guilherme Dellorto, de “Perrengue”), com cerca de seus 20 anos de idade, decidem partir juntos para uma afastada casa de um amigo, procurando refúgio emocional. Dentro do local, que vive cheio por causa de festas extravagantes, eles dois finalmente externalizam todos os seus anseios e desejos reprimidos.

“O Que Resta” é sobre o universo jovem. Perdidos em suas questões que não parecem ter soluções e seus “monopólios da verdade”. Cada um só consegue sobreviver seus segundos com bebidas, sexo, banquetes de comida, mais bebida (o vinho e a verdade), mais drogas, mais sexo (orgias), choradeira, histeria, dramas potencializados. São imaturos, bipolares, abertos a experiências, andrógenos, com diálogos soltos e reações urgentes, entre músicas de rock independente, como “This is Hardcore”, do grupo Pulp; “Cinderella”, de Glass N’ Glue; e “Can We Start Again”, de Tindersticks. Tudo dentro de uma Bi-life.

É um filme de instantes. E de pegação geral. De momentos vividos. De núcleos semelhantes a uma estrutura de uma novela. De análises-terapia sobre comportamentos, angústias. Sobre aprender a “pensar menos na produção”. Sobre aceitar a arte da humildade. Sobre festas e mais festas. Sobre libertar moralidades. Sobre um “ineditismo procurado”. Eles têm tudo. Ricos (incluindo uma crítica do cuidado deles aos empregados e uma crítica ao Rio de Janeiro – “que está caro”), bonitos, jovens. Mas também são vazios, defensivos, pressionados e infantilizados (quando um poema é lido: “Poesia em Suma”, do anárquico José Miguel Silva). E aos outros, “é difícil acompanhar o ritmo” de suas vidas. “O modelo que vocês vivem não é para qualquer um”, diz-se. “O Que Resta” é para sentir o momento e se desconectar da obrigação do contexto.

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