“Eu matei ele assim ó”

Por Vitor Velloso


Recentemente uma questão foi levantada na internet, a ideia era debater sobre a ideologia no cinema. A negação do cinema como ideologia é algo que vem crescendo bastante, seja por uma questão de caminhar no sentido contrário de determinadas vertentes da cinematografia mundial ou simplesmente uma rebeldia da geração. A discussão é acirrada e sem dúvida gera certos inimigos mas como a unanimidade é burra, nada mais justo que a discordância, nesse sentido reafirmo que disse anteriormente em outras oportunidades, não existe cinema apolítico ou sem ideologia. Primeiramente, a decisão de firmar a câmera neste lugar e não em qualquer outro, imprime um pensamento político bastante claro, já que o processo cinematográfico implica uma exclusão da imagem e nunca uma inclusão, no stricto sensu é claro, dessa criar, retratar, documentar ou qualquer palavra que se use, é explicitamente um firmamento ideológico. Em segundo lugar, defender o cinema em si neste lugar de isenção, além de covardia é ignorar a origem da própria criação do processo. Além de industrial, existe uma composição temporal, espacial arquitetada na mente de um criador e impressa pela câmera que faz apenas a vontade do mesmo, logo, excluir a política do cinema é excluir a política do ser que a faz. Sem levar em consideração a origem da criação como sacrifício do artista, uma discussão tão longa que deixarei para a próxima. Mas que implica em questões não apenas políticas mas morais.

O início do texto é para argumentar sobre minha avaliação do longa-metragem, apesar de possuir determinado apreço pelo mesmo.Dito isso, vamos lá!

Dirigido por Beth Formaggini, “Pastor Cláudio” é um documentário que irá entrevistar o personagem título, ex-executor durante o período da ditadura brasileira. A farsa histórica que se dá no Brasil possui raízes bastante profundas durante o período de 64 a 85, onde o terror (militares, empresários e estrangeiros) governou o país. Antes de acusar-me partidário, retiro as palavras diretamente do atual pastor. Deste modo, a denúncia que Beth irá fazer aos fatos narrados pelo entrevistado, possui um fundamento ideológico bastante claro, ainda que a questão jornalística de apuração dos fatos e factoides seja um de seus objetivos (apenas parcialmente). E este modelo acaba gerando uma questão formal bastante televisiva, já que irá seguir a cartilha clássica do jornalismo no cinema. Não apenas isso, mas existe uma questão literária que norteia a maior parte da obra, tanto pela excessiva repetição de textos semelhantes na tela, como determinadas pausas no fluxo imagético a fim de compor uma dramaticidade específica, acredito eu, mas sempre acompanhada de uma trilha bastante genérica que irá percorrer todos estes pequenos momentos.

Existe uma exposição excessiva durante as perguntas, o que é compreensível, já que estamos diante de um registro histórico de importância exemplar e há a necessidade de evitar qualquer dubiedade nos comentários do pastor, para tornar o fato mais claro e legitimar o discurso dele como confissão. Deste modo é visível os contornos realizados pelo entrevistador que buscam uma objetividade maior neste material, evitando reações e expressões.

Mas além de suas faculdades formais, há um outro fator ligado, obviamente, à sua produção que é a baixa quantidade de material de arquivo. Tá certo que em sua maioria, eles são expostos por projeções no momento presencial, o que é um recurso dialético promissor, porém, ao adentrar em determinadas questões da História, como Zuzu Angel, a falta de material leva o ex-executor a levar dados que poderiam ser explicitados diretamente com imagens. E porque não reconhecer a precariedade do formato e recorrer a edição?

Por estas e outras “Pastor Cláudio” é um longa difícil de se defender, mas com muito o que dizer. Existe uma quantidade expressiva de informações e dados a serem retirados do filme, além, claro, de um registro histórico assombroso. A validade do material está exatamente em seu didatismo como primeiro plano, que irá calar muitos fascistas que se recusam a pensar e irá colocar o debate político em um patamar diferente, onde não há mais achismos. E por triste coincidência a mostra que irá exibir o filme no Rio de Janeiro acontecerá no mesmo dia que Marielle Franco foi executada. E Beth, dedica seu filme a ela. O projeto foi rodado em 2015, mas durante a projeção vemos o entrevistador dizer uma hora, afirmando que os alvos do Poder mudaram “Agora são os pretos, favelados, pobres, homossexuais”. Ele tem razão, e infelizmente a cineasta é obrigada a concordar com isso em seus créditos finais. No mesmo mês ao menos o Carnaval lembra da história que não tá no retrato. A bandeira deixou de ser verde e amarela, é verde e rosa.

Ps: O primeiro parágrafo não diz apenas a este filme, explicitamente político, mas qualquer obra cinematográfica. Exemplo “Fort Apache” do John Ford.

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