Um filme Imoral

Por Fabricio Duque

Integra a Mostra Estreias Cariocas


O documentário “Alma Imoral”, baseado na obra homônima (já encenado no teatro por Clarice Niskier) do rabino Nilton Bonder, autor que também é o protagoniza desta ponte conteúdo ao cinema, é sobre a reconstrução dos significados do corpo, e da alma, e sobre a quebra de convenções sociais pela imoralidade, palavra esta que significa tudo aquilo que foge do padrão da normalidade, e esta que, por sua vez, foi moldada por condicionamentos determinantes que definiram de forma absoluta o que é certo e o que é o errado.

Dirigido por Silvio Tendler (o “cineasta dos esquecidos e dos sonhos interrompidos” de “Tancredo – A Travessia”, “Utopia e Barbárie”, “Dedo na Ferida”), seu novo documentário busca conduzir o público, pelas leituras narradas pelos atores Bel Kutner, Julia Lemmertz, Letitia Sabatela, Mateus Solano e Osmar Prado, a um didatismo poético, quando amalgama informação filosófica (entrevistas e narrações), coreografia dança contemporânea pela companhia de Deborah Colker, e Xilogravuras de Ruth Kelson.

“Alma Imoral” é um filme de argumentos. De embasadas opiniões, para que assim possa construir uma aula teológica metafísica sobre os limites morais do ser humano. Seus homenageados escolhidos encarnam icônicos “transgressores”, por terem estimulado a inversão da ordem e a abertura de portas (e ou rachaduras tendências) a novas possibilidades. Cada um foi convidado por sua história de vida e de como todos estes ajudaram a transmutar o mundo, entre espirituosas perspicácias e ampliadas articulações. Tudo representa um amplo e detalhado estudo sobre mudanças.

O filme opta por se estruturar no informativo didatismo idílico como narrativa e nas lúdicas performances de dança, para provar que, na verdade, a moralidade é o “olhar da alma”, uma “teoria evolucionista que preza a moral como elemento humano”. “O interesse do corpo é sempre a preservação”, ensina-se com a atmosfera melódica de lamentos judaicos musicados. “A desobediência transforma macacos em humanos”, continua-se questionando e desmistificando a própria História da Humanidade, quando aborda Adão e Eva; Abraão; Jesus Cristo; Messias. Todos “representantes imorais” que potencializaram a máxima do “Transgredir é também transcender”. E buscando a separação “Religião e Estado”

“Alma Imoral” é também sobre consciência, que vem de um lugar crítico. Aqui se procura romper a religiosa crença passional com a lógica analítica. De que sempre há um “lado sombra” (com sentimentos de luto e exílio) e que “cada ser humano é um tambor batendo”. “Qual a batida de Deus?”, pergunta-se quase como personificação herege. Vamos citar Abraão, por exemplo! Um “escolhido divino que rompe com o próprio eu e cria um modelo de arte de se reinventar e se reconstruir”.

O documentário põe em cheque a definição de certo, errado, apego, traição, Spinosa, tolerância, respeito à diversidade, sionismo, religião, imortalidade, Israel, rebeldia, responsabilidade e do “longo caminho curto”, por personagens reais que não passaram em branco, como os Rosemberg; Steven Greenberg; o escritor Etger Keret; Eva Jablonk; Noam Chomsky; Rebecca Goldstein; a artista anárquica Natali Cohen; a cantora Mira Awad; e do fotógrafo Frans Krajcberg (tema do documentário “Poeta dos Vestígios”, de Walter Sales), que capta “esculturas que gritam” e que diz que é “a passividade que machuca”, entre tantos outros importantes, incluindo os soldados de Israel versus Palestina, que se juntaram para “terminar a ocupação” e “fazer a paz – isto que os torna soldados de verdade”. Sim, tudo é sobre a representatividade do “romper e transgredir” pelos “votos de liberação pessoal”.

“Alma Imoral” é “ouvir o menino das encruzilhadas: a alma”, experimentando sem culpa e “medo de Deus”, as próprias vivências e conhecimentos do caminho. Mas a vida causa um martírio diário. Entre a colocação de que “esquerda é otimismo e direita, pessimismo”, o espectador percebe que estes seres humanizados podem ser comparados a “andorinhas”, por fazer, sozinhos, o verão, o sol brilhar e por inovar sempre. Com suas mutações e continuidades, almejando a libertação do “amor à pedra” e contra a sentença binária da “utilidade das interpretações, que os jesuítas conseguem ler o que não foi escrito”. E, acima de tudo, talvez o mais importante, descobrir “pelo o que se está lutando”.

O filme lança um novo pensar sobre a construção de territórios. Uma nova forma de ser de propriedade. “Sair do território é imoral”, diz-se. É a presença de um novo mundo, aberto a diálogos sobre o gênero trans. Sobre a “luz e a escuridão”. Sobre sabotar a ordem. Sobre Jesus ter sido “mutante e ilícito”. “A realidade é constantemente dinâmica”, finaliza-se.


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