Entre o desejo do ser e do poder ser

Por Fabricio Duque

Integra a Mostra Estreias Cariocas


O cinema é definitivamente uma subjetiva caixa de possibilidades e emoções, a cada obra. É uma experiência do sentir, estimulada pelos cinco sentidos e que cria ainda um sexto, que é a construção da percepção. O público é conduzido por projeções, sonhos e realidades paralelas. E é assim com “Reviver”, segunda parte da trilogia “filmes de viagem”, iniciada com “Salto no Vazio”.

Dirigido por Patricia Niedermeier e Cavi Borges, casal que compartilha suas paixões com o público, “Reviver” é sobre viver o instante. O real momento do agora. É uma jornada de um ser humano preso nas amarras da própria existência. Íntima e universal. Neste, a estrutura, mais narrativa, quer manter a presença contínua do elemento ficcional. Nós somos induzidos a um sôfrego e interno universo, propositalmente artificial, com uma imagem pop modernista de fogo (que explica tudo, que fala, que voa e que é a própria “vida”) mais neon, por exemplo, a fim de distanciar o que se vê e o que se sente.

O longa-metragem é sobre comportamentos humanos manipulados pela influência social da massa e da padronização, como o pragmático produtor, envoltos no mundo artístico, entre obra destruída do britânico Banksy, lendas, esquecimentos, silêncios e iminentes e profundas mudanças. É também sobre o medo do grande passo, causando a auto-sabotagem.

“Reviver” é o acordar. Redescobrir a vida, a humildade de não exceder os limites conceituais, de que a “obra tem vontade própria” e que “o que passou, não volta”. Este é um filme de baixo orçamento, em que a criatividade e perspicácia são mais importantes que o dinheiro propriamente dito. E a frase “Há um tempo entre a liberdade da ação e a urgência de se fazer o novo” pode representar uma metáfora ao processo deste filme.

É a metalinguagem de um “tempo incômodo” de um “roteiro denso”. De invocar a cineasta Agnès Varda. Que soa perdido e estranho quando a consciência é despertada e expandida por ruídos. A fotografia saturada, em ângulos-enquadramentos poéticos e artifícios não convencionais, aos anos oitenta busca uma suspensão do tempo das coisas. Como em um sonho. Desgastada e envelhecida. Com borrões, desfoques e super close mais agressivo (mais uma vez muito semelhante a Bergman).

“Reviver” é uma anárquica revolução por experimentos imagéticos, desejando o caos. A destruição pelo fogo para o renascimento. O reviver. Por memórias da natureza. É um filme que quer ser organicamente amador para reconstruir espaços espectrais e alquímicos, “decidido pelo maré”. Sua personagem encontra-se no embate entre não ser o que é e o que os outros o obrigam a ser. Em inversões, confissões e contemplações. Particulares e pessoais. “O tempo estende os olhos”.

A história versa o escritor Greg (o ator Jorge Caetano), que é contratado para escrever um roteiro sobre a excêntrica artista desaparecida Maria Guaranis. Identificando-se com a artista, ele se perde no labirinto da criação. E assim permite libertar os limites em uma entrega deliberada que alcança os níveis da loucura. É a filosofia entre o clássico e o moderno. Entre anseios e angústias. Entre a felicidade e a apatia. Entre danças menos performáticas e mais catárticas, como uma fuga do esquecimento. Um grito de aviso que ainda há vida em um corpo morto. Que remete ao tom habitual de Yves Klein (influenciador da primeira parte) e ao psicológico de Ingmar Bergman, principalmente em “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam”.

“Reviver” é a essência máxima da vida quando seu protagonista diz que “Fazer filmes é como se minha vida dependesse disso”. Sim, é pessoal. Uma sinergia dos diretores com a própria ficção em um ritmo próprio de “formas sem consistência”. “O que eu desejo ainda não tem nome”, diz-se com “Space Oddity”, de David Bowie. “A última vez é uma só e acabou”, diz-se.

Mas esquecer também é uma proteção. Uma autopreservação. Quando se apaga todo o passado, tudo a seguir torna-se novidade. Esta desconexão gera uma sensação etérea, distante e mais real. Sem sofrimentos, frustrações, ansiedades e labirintos deturpados. “Maranhão é um lugar lindo para desaparecer. Desaparecer é como um sonho. Uma história. Um mito. Um mistério. Uma paralisia narcisista”, ensina-se. “Reviver” é sonho, realidade e fantasia.

Ainda que narrativo, este tendencia à experiência e à oportunidade do momento. Ora encenado demais, ora sonhador demais, ora facilitador demais, ora pressionado demais, ora ensaiado demais, mas contudo todavia é uma obra que respeita e segue à risca, completamente, e incondicionalmente apaixonada, seu propósito de tentar simplificar o olhar e desenvolver caminhos mais livres e libertos de padronizações criativas. Como foi dito, é uma revolução contra a zumbização do cinema.


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