Enigmas e exposições

Por Vitor Velloso


Se o cinema de gênero é um campo pouco explorado dentro do cinema brasileiro, compor uma obra que foge da estrutura clássica dentro deste modelo estigmatizado dos diversos caminhos possíveis é ainda mais difícil. “Albatroz”, dirigido por Daniel Augusto, é um caso particular no mercado nacional, por trazer atores globais à um cenário pouco comum na carreira dos mesmos e buscar uma não linearidade na narrativa que busca contar. É sem dúvida um projeto interessante que busca atingir locais inusitados, porém acredita demais em seu potencial e se sabota numa crença intelectualóide.

Escrever o enredo é comprometer a experiência do espectador, logo irei me ater em pequenos detalhes da trama.

O tratamento da realidade é onde se fixa o texto, não há uma distinção clara do sonho, da ficção e do concreto, o que torna o exercício interessante, já que abandona o didatismo em prol de um desafio direto a quem assiste. Inclusive levanta uma questão curiosa acerca da ética artística, neste caso a fotografia, pois irá debater a validade de um sucesso fundado em uma foto de violência pura. Ainda que não haja profundidade na discussão e a originalidade não seja um forte da estrutura, aliás, ao comentar com um amigo sobre o longa, ele acreditou ser “O Abutre” de Dan Gilroy, toda a intenção que há, é válida. O problema é que toda essa pseudo criatividade se prende a um arcabouço pouco produtivo, exemplo, as referências a Lynch são constantes, inclusive da famosa cena de “Mulholland Drive” no Club Silencio. E todo esse ciclo de alusões não se firmam como homenagens, mas idealizações baratas do que seria um sonho de fato.

Para além disso, a direção de Daniel é inconstante, deixando escapar seu repertório de maneira pouco expressiva, dando sempre voz aos ícones que referencia. Esta questão deixa claro a falta de autoria que irá traçar todo o caminho estético da obra. A montagem e a fotografia buscam criar uma atmosfera que tenciona sempre ao suspense, hora flertando com brevíssimos elementos de terror. Mas até estes elementos soam televisivos ou pouco construtivos à obra, ainda que possua seus momentos de brilho. Pois a estrutura que se confunde entre formalismo e estruturalismo textual pobre fica solta dentro da própria proposta do diretor. Essa compreensão mais literária do desencadeamento da história nos traz uma reflexão próxima a de cenas do filme, onde começa o cinema e termina o roteiro? Qualquer argumentação da conjugação das duas etapas da produção além de redundante é redutora por natureza, já que a inter-traição é a única maneira de conceber a ideia. E neste caso onde a dialética é parte intrínseca do material, onde há a soltura de pequenas deixas de uma narrativa à parte, não há possibilidade de manter-se fiel à ideia que conceberam as imagens.

E esta limitação pouco frutífera e que gera um intelectualismo que sabota a própria reflexão do pensar, reflete nos atores diretamente, já que o espaço dramático fica reduzido à burocracias cinematográficas mercadológicas. Não que Alexandre Nero, protagonista (Simão), Andréa Beltrão (Alicia), Maria Flor (Catarina), Camila Morgado (Renée) e Andreia Horta (Dra Weber) prejudiquem seus personagens, pelo contrário, é nítido o esforço de cada um, inclusive o bom trabalho dramático em determinadas cenas, mas a amplitude narrativa que comporia este drama não acompanha a unidade que procura formar. Além de trejeitos vulgares que buscam gerar o choque ou atingir diretamente o espectador. Esses gatilhos mais extremos não se justificam dentro de toda a construção realizada pelo diretor e o roteirista Braulio Mantovani. Aliás, estes problemas de sulcos narrativos são um problema constante na carreira de Braulio e sua multiplicidade de personagens apenas prejudica seu aprofundamento ideológico. Alguns diálogos que buscam enigmatizar o que ocorre durante a projeção soam tão expositivos que provocam o efeito do contrário do desejado, apenas esclarecendo a superficialidade de cada discussão provocada ali.

Um projeto interessante, sem dúvida, mas sua falta de originalidade e estrutura concebida (não me refiro a pseudo-dificuldade narrativa, apenas à sua vontade exacerbada de se fazer difícil) prejudicam gravemente o filme. E como de costume, um produto pouco brasileiro que atingirá às telonas.

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