Quem é você?

Por Pedro Guedes


A culpa e o arrependimento são duas dores que podem nos perseguir para o resto de nossas vidas. O peso na consciência, por sinal, é perfeitamente capaz de interferir na maneira com que vivemos, enxergamos o mundo e sentimos a realidade que está ao redor – e se este peso for longevo (ou permanente), a situação só fica mais drástica. A morte já é um dos maiores medos do indivíduo (como vimos em “Hereditário”), mas morrer e deixar somente a dor como legado é algo ainda mais assustador.

“Homem Livre” é um filme que tenta ilustrar estes medos em suas condições extremas, impactando pesadamente a atmosfera que cerca o protagonista – e se o resultado tropeça em alguns de seus objetivos, isto se deve mais à execução do que à premissa em si.

Roteirizado por Pedro Perazzo, este é o primeiro longa do diretor Alvaro Furloni, que, até agora, só havia realizado curtas-metragens (um deles, documentário). Exibido em festivais de Cinema desde 2017, o filme se concentra em Hélio Lotte, um ex-rockstar que há muito viu seu prestígio ir embora e, hoje, carrega o peso de ter cometido um crime brutal (que prefiro não revelar qual é). Depois de passar anos na cadeia, Hélio é finalmente solto e recebe abrigo de uma igreja evangélica, mantendo-se dentro de um apartamento pequeno para se autoanalisar e recuperar um pouco de sua boa forma. O que não acontece, já que o peso do passado continua a massacrar o sujeito.

Como podem perceber, “Homem Livre” é mais um estudo de personagem do que um filme “de trama”: sim, dá para argumentar que existe uma linha narrativa aqui, mas o que importa mesmo é o mergulho na mente de Hélio e descobrir, aos poucos, quem ele é (algo que nem ele sabe ao certo, já que o pastor vivido por Flávio Bauraqui se aproxima e lhe pergunta enfaticamente: “Quem é você?”). Neste sentido, o filme é relativamente bem-sucedido, pois cada nuance que compõe a persona de Hélio é explorada com calma e paciência – e a dor sentida pelo protagonista é estabelecida de maneira crescente: desde o início, fica claro que os traumas não deixaram de persegui-lo, porém o roteiro vai revelando aos poucos quais são estes traumas (e, com isso, propõe uma “escalada emocional” bastante eficaz).

A performance de Armando Babaioff, inclusive, é fundamental para que Hélio se transforme em um protagonista convincente, sendo admirável que o ator faça um bom trabalho ao ilustrar a amargura, a culpa e a inquietação que pesam nas costas do sujeito; que, por sua vez, sente-se continuamente torturado e não vê uma solução para seus problemas. Por outro lado, não há muito que Babaioff possa fazer para contornar alguns erros bobos que o filme comete ao desenvolver seu personagem – e se a designer de produção Patrícia Ramos peca ao exagerar nos tons de vermelho, escancarando para o espectador a natureza “malvada” do protagonista, o roteiro de Pedro Perazzo revela suas fragilidades ainda nos primeiros minutos da projeção, quando se entrega a diálogos dolorosamente expositivos e frases de efeito artificiais que só pioram graças ao mau desempenho do elenco, que, em geral, se mostra pouco eficaz.

Desgastando sua capacidade de desenvolver seus temas e tornando-se particularmente redundante do meio para o fim, “Homem Livre” é prejudicado também pela direção de Alvaro Furloni, que emprega algumas técnicas que soam mais adequadas a um trabalho universitário do que a um longa feito por alguém que já está no mercado há anos: os fades são repetitivos a ponto de se tornarem ridículos, os diálogos frequentemente doem nos ouvidos e, mesmo servindo para gerar claustrofobia, os planos se mantêm exageradamente fechados na maior parte do tempo.

Em compensação, Furloni faz um bom trabalho ao construir uma atmosfera pesada, sufocante e que leva o espectador a sentir que algo terrível pode ocorrer a qualquer momento, estabelecendo um clima que assusta sem depender de imagens óbvias ou graficamente violentas. O horror despertado por “Homem Livre” está enraizado em feridas psicológicas e sentimentos que podem comprometer uma pessoa pelo resto de sua vida – e isto, em especial, é um acerto do filme.

Assim, este longa de Alvaro Furloni se revela um esforço irregular, porém bem intencionado. Aguardar os próximos projetos do cineasta pode valer a pena; contanto que alguns dos probleminhas apresentados aqui venham a ser corrigidos.


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