Quer minha liberdade? Vem buscar!

Por Vitor Velloso

Direto da Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


Se a história se repete como farsa, no Brasil, essa afirmação é questionável, já que neste país temos a infelicidade de vivermos uma tragédia e uma farsa, ao mesmo tempo. Nem Marx iria prever essa. E se o inexplicável é o sobrenome de nossa História, o mesmo pode-se dizer de algumas figuras que vão surgindo ao longo desta complexa narrativa que chamamos de passado. Tais figuras não apenas mudam a sociedade através de suas palavras, mas de suas atitudes, fundando a verdadeira diferença de um líder para um representante. Para nossa sorte tivemos alguns, mais do que merecemos, possivelmente. É provável que o primeiro nome que venha a mente, é Zumbi. E é compreensível. Porém, temos outros mais recentes, do século XX que devemos lembrar também. Mas como não podemos sonhar com algo melhor, todos acabam sendo assassinados, ou presos. Marielle, Lula, Marighella e claro, Chico Mendes. Apesar de tudo, nosso Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não conhece a figura do militante ambientalista Chico Mendes. Além de não ter nenhum referência para pôr em debate, assume sua ignorância política e em tom sarcástico nega a necessidade de possuir este conhecimento. Bom, Brasil.

Dirigido por Sérgio de Carvalho, “Empate”, irá acompanhar parte da trajetória do seringueiro e nos mostrar a realidade que diversos companheiros de Chico nos dias atuais, alguns há mais de cinquenta anos na posse, tendo que lutar por seus direitos na justiça contra os latifundiários apoiados pelo governo de abundância de nosso país. Se a bancada agrária é dominada por grandes donos de terra e possuem força no Congresso, imagina se a mesma bancada também compactuar com a “bancada da bala”? Bem vindo ao Brasil.

Sérgio é preciso em seu registro, entrevista os resistentes sobre a história e a relaciona com o futuro com a presença de terceiros, criando sempre um anacronismo em cada narrativa contada na tela. Essa atemporalidade, fruto da história de luta de cada um daqueles homens, se reflete na constante luta que são obrigados a travar para manter o direito de moradia. O mesmo não pode-se dizer do tempo biológico (e histórico nos arquivos), onde vemos os companheiros envelhecendo e morrendo, ao longo dos anos. Se essa morte ao menos fosse natural, ficaríamos com a consciência tranquila que a luta não levou a fatalidade tais pessoas, mas não é o caso.

Enquanto o diretor constrói essa memória nacional, tenciona seus esforços em mapear todo aquele território, principalmente, cada um dos posseiros. O que além de um trabalho necessário, mostra a preocupação em dar nome à luta, mostrar o rosto de cada um que está no front para que a decadência da política nacional não assombre suas vidas. Esse apego pela geografia do local, mas também aos seres humanos que ali vivem, mostra a vocação do documentarista, não um realizador de registros históricos. Saber em que terreno está caminhando enquanto cineasta, compreender que não se aponta a câmera para nenhum lugar de maneira arbitrária, que cada movimento é político, que cada corte pode ser um grito.

Essa presença fílmica na projeção, além do ativismo, é nítida na forma que aplica no filme, utilizando material de arquivo, entrevistas, uma exposição de debates entre os posseiros. Essa utilização diversificada dos recursos do cineasta, mostra ao espectador uma preocupação, não apenas em deixar que os fatos apareçam na tela, mas de ir atrás deles. E a possibilidade de entrevistar o outro lado da história é negada, pelo simples motivo de existirem fatos, provas do atropelo da Constituição. E sem o menor pudor em soar agressivo, eu não quero ouvir argumento de assassino e criminoso.

Ainda que parte deste material poderia, sem dúvida, gerar algum debate interessante pós sessão, este não é o foco de Sérgio. Ele quer denunciar os absurdos de um país esquecido pela mídia e população. Tenho certeza que ele adoraria poder dizer “escândalos”, mas pra isso ele precisaria da mídia ao seu lado. E todos nos sabemos que a mesma só está do lado que possa lhe render algum lucro, não necessariamente o mais forte, mas onde estes parasitas engravatados podem mamar e usufruir com mais facilidade e cifras.

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