Grécia mon Amour

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


Eurocentrismo. A mazela que destruiu o Brasil? De forma indireta, sim. Diretamente foi o genocídio provocado pelo pensamento do primeiro. Não há como negar que a criação que recebemos e toda a moral e ética que somos apresentados ao longo do nosso desenvolvimento é de origem europeia, mas é necessário aprender a romper com essas amarras e tratando-se de intelectualidade e discurso poético, no teatro e cinema, o pensamento crítico já é o primeiro passo para enxergar que a estrutura é falha, excludente, e ainda que universal, não encaixa tão perfeitamente na América Latina, porque isso aqui é outra coisa. Aliás, a História já nos mostra isso.

Em “Trágicas”, Aída Marques busca traçar um interessante conceito anacrônico da violência. Enquanto ato violento, não importa a época que se dá, a tragédia possui suas semelhanças. No papel soa um projeto intrigante, já que veremos Medeia, Antígona e Electra (???) serem relacionadas diretamente com atos violentos ao longo da história do Brasil, da ditadura militar aos tempos atuais. A funcionalidade da obra é comprometida a partir de um dado muito elementar desse trabalho, o que vemos neste país está longe de ser uma tragédia familiar ou a dor de uma traição ou qualquer problema de grego. No Rio de Janeiro, acontece uma limpeza demográfica dos órgãos públicos, agora apoiada pelo próprio Governador, que diz sem pudor algum que se o policial julgar viável uma fatalidade, que assim o seja. Não que isso não ocorresse anteriormente, porém agora será com o aval do nosso representante no governo do Estado.

E qualquer uma dessas histórias clássicas do teatro possuem profundas camadas psicológicas em seus atos violentos, sempre com uma construção dramática que irá conceber este momento. Enquanto as histórias paralelas que Aída busca representar aqui, são de uma omissão tão monstruosa, que o paralelo simplesmente não funciona. Além disso, vemos longos minutos de performance, com a incrível Gisela de Castro, ocuparem a maior parte da projeção, enquanto as histórias reais dos relatos da ditadura e das vítimas de violência da polícia ocupam o menor tempo. Qual a intenção do projeto? Servir de palco pra branco burguês da Zona Sul aplaudir a maravilhosa performance da atriz e acreditar que a quebra de ritmo vem de uma mãe sofrendo pela morte de seu filho? A ideia foi realizada visando este público? Eu prefiro acreditar que não. O processo de montagem do longa era a chave pra concentrar os argumentos sobre todo esse anacronismo que vemos na tela. Mas o eurocentrismo venceu mais uma vez, e os fatos, a realidade, fica em segundo plano. Negar a realidade em um momento como é esse, é muito grave. Apontar a câmera no rosto de uma mãe, pedir a ela que reconte a pior coisa da sua vida pela enésima vez e coloca-la com menos tempo de projeção que o texto de Electra, é duvidoso.

Se a proporção é de 60% performance e 40% documentário, teríamos aproximadamente 40 minutos de atuação, juntando com os créditos, dois jovens negros morreram durante a encenação. E é claro que não culpo Aída por este número trágico da realidade brasileira, mas a relação que ela busca nos textos clássicos com essa contemporaneidade, não é tão concreta quanto pensa. Nem mesmo os momentos sobre a ditadura possuem tanta força, já que o fascismo instalado na década de 60 aqui, não possui caráter tão odioso quanto as palavras de Eurípedes e outros, são de cunho mais social. Agora, seria irresponsável da minha parte não reconhecer nenhum mérito da diretora na obra, a misancene que constrói ao lado da atriz é interessante de se assistir. Além do paralelo específico com a violência doméstica que traça em momentos breves. A questão feminina que atravessa a História como base de luta e resistência. É admirável essa admiração pela força da mulher enquanto eixo de poder nestas narrativas ficcionais clássicas e na realidade mais rígida que existe, a violência diretamente aos seus corpos e filhos.

O problema é que esta questão eurocêntrica e a costura mal-acabada entre a maioria das histórias que retrata, ou tenta, não funciona enquanto dialética. E didatismo… esquece.

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