Uma ode à Brasilidade

Por Vitor Velloso


Existem filmes que estão além do campo formal que a análise burocrática permite descrever. São verdadeiras odes à um Brasil que vem se perdendo estruturalmente pelas instituições odiosas e opressoras, mas que sempre se manterão resistentes pois a cultura deste país é tão imortal quanto os mitos que não cremos, mas somos incapazes de negar.

A maior beleza de “Fevereiros” de Marcio Debellian, é atropelar o tempo e a política para perpetuar cada ritual na tela como um relato de corpo e alma de um povo que nunca esqueceu de sua história. Esse anacronismo proposto pelo diretor só é possível pelo seu deslocamento no campo do documentário, onde é expositivo ao dar voz a Maria Bethânia e Caetano Veloso acerca de todas suas percepções de sua cidade natal, ao mesmo tempo levar o espectador a um universo de cores e danças sem escutarmos ou vermos nada além da energia proporcionada por aquelas imagens e ambientação. Não se trata de um documentário novo ou particularmente original, mas adentra no mercado brasileiro em um momento onde vemos nossas pequenas tradições se perderem por sincretismos que tanto comemoramos à pouco, dominarem a relação mais horizontal que tínhamos neste país, a fé. Curiosamente, “Azougue Nazaré” trata deste mesmo paradigma social que a cultura está vivendo, ainda que de um ponto de vista muito diferente, político inclusive.

Mas ao vermos Menininha em toda sua sabedoria e serenidade, conversar com Jorge Amado, ateu e materialista, com o respeito que não apenas a idade permite, mas a serenidade em reconhecer a diferença, compreendemos que determinadas pessoas estão além desse plano, além da concepção. Se o ceticismo não permite acreditar em diversos rituais e crenças, ao menos a sensibilidade de observar as danças e a fé, nos coloca em um jogo complexo. Entender que cada fragmento daquilo que negamos, existe e nos afeta, ainda que não façamos parte disso, ou não queremos.

E essa é a beleza da fé em um país que forçou a minguá-la a apenas um ideal de martírio. A uma figura única que somos obrigados a erguer a cabeça e enxergar seu sofrimento e nos sentirmos culpados pelo seu ato. E minha crítica aqui não está ligada diretamente ao cristianismo, mas sim a idealização de que o país só possa constituir uma religião. O país é laico, mas todos são livres em suas convicções. Exatamente desta diferença de visões de nosso sincretismo, que gera a beleza do que vemos culturalmente no país.

O documentário em questão irá tratar das festas de janeiro e início de fevereiro que ocorrem em Santo Amaro, assim como a homenagem à Maria Bethânia feita pela Mangueira em 2016. E toda essa transição temática é realizada com entrevistas e imagens de arquivo que mostra como a mistura cultural brasileira se deu em camadas mais extensas que a antropologia poderia conceber. Além do campo social, rodas de caboclo interagem com entidades indígenas. E não há nada essencialmente brasileiro que não seja composto por esta mistura. O formalismo brevemente didático que assume o diretor dá lugar a uma dialética de corpos e falas, tornando a experiência interessante e curiosa, já que saltamos de questões sem muitos avisos. A única problemática que essa proposta possui é o eixo se mantém solto demais em determinados momentos da projeção, ao ponto de não conseguirmos compreender sobre o que se trata de fato o filme, apenas apreciamos toda a cultura que salta da tela.

Mais essa falta de fixação por uma temática específica e tentar abraçar um universo maior que uma hora e quinze de exibição possa comprimir, não tira o brilho tupiniquim dos olhos do espectador. O carisma que cada um dos entrevistados possui permeia a obra até o fim e irá levar no pensamento reflexões sobre a natureza do Brasil e dessa reação que vemos atualmente. E quando pensamos em tristeza ou luto por aquilo que poderíamos ser, olhamos para Santo Amaro e vemos que ainda somos e por eles, sempre.

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