Um sentimental e catártico lamento-ópera

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Exibido no Festival de Berlim 2018, o novo longa-metragem do diretor filipino Lav Diaz, conhecido por suas obras de longuíssima duração, “Estação do Diabo”, corrobora suas características que definiram seu estilo. Uma delas é sua crítica histórico-política sobre seu país e as influências sentidas em seu povo. O tom suaviza-se pela espontaneidade da poesia, que mostra sem discursar, e desta vez pela presença da música à capela. Seca, crua e sofrida como um canto iraniano. Em três vozes. Pela fotografia em preto-e-branco.

Com três horas e cinquenta e quatro minutos (quase um curta-metragem ao diretor), é um filme musical de entonação humanizada e orgânica. De dramatizar com a sutileza das emoções. Em planos longos, estáticos, estendidos e casuais. E é nessa tradução cotidiana do existir que assuntos são aprofundados e questões discutidas com perspicácia política e literária (referência a “Fahrenheit 451″, de Ray Bradbury). Lav descreve seu filme como uma “ópera rock filipino“ à moda de um autoral “O Fantasma da Ópera”.

“Estação do Diabo”, baseado em histórias reais de amigos, traz sua carga dramática na espontaneidade encenada da vida de seus moradores, aproximando afinidades. Nós somos convidados a participar de seus dramas “contra rebeldes” (“não me imite”). De “festas comunistas”, das “gírias militares”. Aqui, a imagem é contemplada e a violência alimentada pela violência. É cinema direto, focal e decidido na essência de seu conceito. Mais teatral e com liberdade de traduzir silêncios, representações naturais do existir.

O longa-metragem reverbera simbolismos da “poeira” (que se desintegra sem dó nem piedade). “O diabo está ao lado”. “A vítima do vampiro”. O ser-humano precisa de explicações. De acalentar a mente sem dúvidas e com respostas definidas. De filosofias concretistas e realistas. Como a performance de Hugo Haniway por Piolo Pascual. É um estudo sentimental de comportamento social. Em cartas declarações de amor, sombras, vernissages, encontros culturais, abraços demorados e “predadores soltos”. Por mascarados, “comediantes pretensiosos”, “padres e reis”, “peregrinos andantes, “drogas demagogas”.

“Estação do Diabo”, uma fábula real, é sobre a liberdade infinita. Sobre a história do último filipino. Ao redor, vendados. Em discurso de catarse com voz de revolta. Que exorcizam demônios da alma. O filme é acima de tudo sobre o conceito máximo. Sobre a essência da ideia (“as teclas da máquina de escrever”) que não se preocupa com a forma. Sobre a mudança de uma família. Sobre a “doença do país”.

Sobre a “doença interna da juventude”. Sobre valentões, soldados, “falsos profetas”, médicas firmes (que lutam pela verdade, contra a “fraqueza consciente” e procuram por justiça) e “protetores” que causam medo ao invés de fornecer tranquilidade. Sobre o poder. Sobre uma “menina nova para servir”. A “atriz borboleta” que incomoda. “Se o mundo perder a melodia, o que eu faço com a chuva?”. Sim, o “mundo não oferece certezas e o homem nunca aprende”.

O filme, uma ópera-saga, é sobre a luta personificada do bem e do mal. Que espreita inferindo a “Twin Peaks”, seriado de David Lynch. Dos “monstros” e dos sobreviventes. Em “céu imaculado”. De tragédias de “sua morte”. De “ultima esperança que foi apagada”. Há um cenário apocalíptico. De “Blade Runner” com “O Vingador do Futuro”. Mas estão ativos. “Sempre teremos nossas mentes”, diz-se. Mas “agora a desesperança não escreve”. Vivem como fantasmas e “choram mentiras e mitos”. O “cantar” para “libertar e para confortar”.

“Estação do Diabo” é um lamento catártico. Um embate litúrgico musical. É um filme de instantes sociais com medos projetados. Cada um sofre sua perda. E vive épocas obscuras. De estupros e “possessões de corpos”. Sim, voltaram à caverna de Platão. Eles querem “voltar a viver”. São sensíveis e bucólicos, envoltos em névoas, crueldades, hostilidades, vulnerabilidades e luzes teatrais de um “país burro”. “Não tema a solidão”, ensina-se. É uma obra sobre como transpor as dificuldades do inferno para chegar ao paraíso. Estão em um limbo eterno. Sem esperanças e expectativas. Contudo, a música salva. Espanta males e fornece o último resquício protetor para continuar.

No final da década de 1970, uma milícia controlada por militares oprimia uma aldeia remota na selva filipina. Os homens uniformizados armados com metralhadoras foram responsáveis por espalhar um terror de natureza física e psicológica. Eles criaram uma atmosfera em que os vizinhos se tornavam inimigos e procuravam erradicar a fé dos aldeões em lendas e espíritos. A jovem médica Lorena (a atriz Shaina Magdayao), sem medo, abre uma clínica para os pobres, mas desaparece sem deixar vestígios pouco depois. Seu marido, o poeta, ativista e professor Hugo Haniway (o ator Piolo Pascual), quer descobrir a verdade do paradeiro de sua esposa. Quando ele chega ao lugar é confrontado com uma comunidade desestruturada pelo despotismo e pela violência.

Escrito pelo próprio diretor, as letras das canções do filme retomam o humor sombrio durante a ditadura de Marcos e, lamentando as condições, descrevem o tremendo sofrimento, cuja monstruosidade não pode ser capturada nas imagens. A história e os personagens do filme são baseados em eventos e indivíduos reais. A mistura idiossincrática resultante do filme de música e do drama histórico reafirma a reputação de seu diretor como cronista dos traumas de seu país.

Do diretor filipino Lav Diaz (conhecido por seus filmes de longuíssima duração, que chegam a onze horas: “A Mulher Que Se Foi”“Canção Para Um Doloroso Mistério” – que participou da competição oficial da Berlinale, colocando a então presidente do júri Meryl Streep para assistir suas oito horas, “Norte, O Fim da História”“Do Que Vem Antes”, “Evolução de Uma Família Filipina“). “Ang Panahon ng Halimaw (Season of The Devil)” é praticamente um curta com seus 234 minutos. Com Piolo Pascual, Shaina Magdayao, Pinky Amador, Bituin Escalante.

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