Terra maldita

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


Enquanto assistia a projeção de “Currais” no Cine-Tenda, durante a Mostra de Tiradentes, chorava ao ver as fotos daquelas pessoas fadadas à desgraça pelo orgulho daqueles que tanto têm. Chorei. Não apenas pelas fortes imagens que eram projetadas na tela, não pela dor que emanava de seus olhos, chorei porque sabia que aquele sentimento é comum a América Latina, e que infelizmente, não trata-se de passado. E se começo o texto quebrando um dos dogmas clássicos da crítica padrão, me colocando em primeira pessoa, é porque não enxergo-me critico e sim brasileiro. E aos que interpretem isso como acima de tudo que vem acontecendo no Brasil atualmente, faça o favor de ir para casa do Queiroz.

Dirigido por David Aguiar e Sabina Colares, o longa irá acompanhar Romeu (Rômulo Braga) atrás da história de um campo de concentração no interior do Ceará. Com uma relação direta com sua família, que não irei revelar, a história lhe incomoda e o faz percorrer esse passado que não foi esquecido, mas sim ocultado.

A linha entre o real e o documentário é muito tênue, pois temos um ator realizando as perguntas à pessoas reais na estrada. Em conversa com os diretores, os mesmos revelaram que Rômulo tinha praticamente carta branca em sua interpretação e que deveria permitir que todas aquelas histórias reagissem em seu corpo. Não à toa, em diversos momentos é possível perceber pequenos gestos de seu rosto eclodindo durante uma conversa, normalmente, raiva. E todo essa angústia que Romeu carrega em si, essa explosão iminente, esse ódio pelo desprezo alheio, pela ignorância provocada pelas instituições que cada um ali elegeu, chega ao apogeu em lágrimas que há tanto tempo não visitava, e por meu rosto escorria uma gota quente, não escarlate como as vítimas de 32, mas de uma impotência paralisadora.

E se todo esse sentimento é potência pela direção e pelo sempre brilhante Rômulo, Petrus Cariry nos entrega um deleite visual que esbanja melancolia, mas me fez expressar da maneira mais contundente que pude, um pausado e longo “PQP”. Ao vermos a maior parte da tela preenchida pelo preto, ausência e vazio, apenas uma vela ilumina o ambiente e por isso somos capazes de ver os sulcos que o Brasil deixou no rosto de cada um de nós. Não há relação apenas ficcional com o que vemos na tela. Se o peso que sentimos nos ombros de cada gigante projetado naquele cinema ao qual levantamos a cabeça à mirar, nos atinge, sejamos humildes em reconhecer a História como algoz daqueles que um dia foram impotentes. E se a ficção é nossa única maneira de perpetuar tais vítimas fora do papel de seus óbitos, que o façamos de maneira direta. E ao levantar, a dor não cessa, a potência é corpo e eles retornam à imagem-movimento, não para atos prosaicos ou mesmo vingativos, mas para nos lembrar que memória é algo que se leva ao túmulo e não pertence apenas aos vivos.

Há de fato, uma pequena barriga durante o longa que se dá entre os dois personagens adicionais que surgem na trama, além de uma cena de dança no bar. Até diria que alguns minutos da parte final são maiores que deveriam. Mas ainda assim, é inegável a força que há em “Currais”. O som do filme é de fluidez ímpar, mantém-se tão sereno em leitos melancólicos e tão visceral em explosões isoladas que é possível reagir fisicamente a momentos específicos. A imersão cinematográfica aqui vista, é de uma intensidade tão brutal que saí da sessão tonto. E nessa falta de equilíbrio escuto uma notícia de um amigo acerca da situação da Venezuela, que ocorreu durante a exibição de “Currais”. Percebo que a farsa não é apenas histórica, seu sinônimo é latina.

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