Afetos e encontros do verão

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


O campo do documentário possui diversas vertentes que divergem ou convergem em linguagem, teoria ou mesmo estilos narrativos. “Um filme de Verão” de Jô Saferty cumpre uma função bem peculiar neste meio. Sendo responsável por desenhar essas vidas em um espaço tão curto de tempo, a diretora é precisa em retratar esses corpos durante as férias, vivendo um estilo de vida parcialmente diferente daquele que iriamos conceber a elas. Inevitavelmente, o interesse pela obra vai depender do espectador por todos aqueles personagens na tela, mas Jô é tão habilidosa em filmar de maneira quase invisível e selecionar especificamente cada trecho, cada ritual, que é muito difícil alguém não se apegar a pelo menos um deles.

A forma com qual trabalha exige uma dedicação intensa em agregar todas essas energias nesse ócio das férias. A grande sacada foi selecionar todas essas pessoas de maneira específica. Nenhuma delas é de fato desinteressante, todas as relações familiares que vemos diante da tela são profundas, sinceras. As amizades que vemos são aquelas que tínhamos quando o mundo ainda era um lugar mais bonito. E quando observamos em toda a formosura de um neto, cantar junto com sua vó se preparando para uma gira, vemos que esses afetos não são apenas anacrônicos, são de fato imortais.

Assim que a projeção se inicia vemos um projeto cultural acontecendo na escola, onde é possível ver alguns talentos se desenvolverem na tela e sem dúvida um deles é parecer natural diante da câmera, existe apenas uma questão que freia a cadencia inicial, a aparência de clipe incomoda, soa corrido e não podemos ver mais que 30 segundos. A consequência disso é sermos jogados diretamente à residência onde veremos a interação desses amigos em diversas situações diferentes. É claro que existe uma vantagem nessa proposta, pois não concebemos em nenhuma instante parte da personalidade deles, apenas personas em palcos diante daquele público. O que faz a diferença na experiência, basta o espectador ponderar se para o positivo ou negativo.

Os alunos que compõem o documentário possuem essa amizade forte ao qual me referi anteriormente, mas além disso eles compartilham de angustias muito próximas, certos anseios sociais, desta maneira torna-se de fato um universo à parte onde eles recorrem e vivem em harmonia e sintonia, sabendo que fora deste ciclo social, a vida não se apresenta tão fácil a eles. Em pequenas brincadeiras e diálogos percebemos a maneira de interação deles funciona baseado em lealdade e apoio mútuo, ainda que eles sejam apenas adolescentes, logo, diversas manias e trejeitos sejam repetitivos aos jovens de sua idade, os mesmos possuem personalidades muito fortes e pontuais, dessa maneira nenhum deles parece ser um modelo genérico de uma ficcionalização barata. E esse é sem duvida um dos maiores trunfos que a cineasta tem em mãos, pois desta maneira, não precisa se prender a pequenas fórmulas para realizar seu trabalho. Se tornando mais livre pelo simples ato de ter a sua disposição material suficiente à realizar um belo filme.

Mas se o afeto e tudo que esta relação representa, o mesmo não pode-se dizer do ritmo que se dá durante a progressão, pois, por determinadas repetições do dia a dia, estamos limitados a alguns relatos para compreender como funcionam aqueles corpos fora daquele ambiente, fora daquelas câmeras. Pois sua presença em tela é tão natural que duvidamos se não tratam-se de performances, ainda que inconscientes. E mesmo que o espectador perceba a naturalidade de toda aquela misancene da vida real, alguns podem vir a perder o interesse no meio do caminho, por achar que algumas jornadas não possuem conclusão. O que é claro não é um demérito onde há culpa do longa, já que seu material existe independente da obra existir. Mas de todo o jeito o projeto que Jô concebeu possui tanta alma que relevamos alguns problemas afim de apreciar alguns pequenos momentos de pura mágica das relações humanas na tela.

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