Do centro ao centro

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


Cu.
E é exatamente esta a primeira imagem que vemos na tela ao ser exibido o filme “A Rosa Azul de Novalis”, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. Lendo Hilda Hist com o cu virado para o céu, Marcelo (Gustavo Vinagre) inicia essa “biografia” contando todas as suas histórias à câmera, sob sua intelectualidade, seus gostos, seus medos e tudo que o cerca. Com o carisma estonteante Gustavo compõe esse personagem através de seus vícios e frustrações, em sua maioria sexuais. Homossexual, ele conta todas as suas aventuras sexuais com diversos homens de aplicativos. O mais curioso é que a projeção inteira é ele falando, mas com tanta verve e fluidez que se torna um divertido exercício escutar sem parar, não há necessidade de fazer nenhuma intervenção.

Sendo inteligente em utilizar os dispositivos cinematográficos ao seu favor, o diretor mantém uma postura coerente ao seu trabalho cenográfico, quebrando a estrutura de documentário em algumas situações, seja para uma performance pontual ou algo que irá ampliar nossa visão de mundo do personagem, exemplo, quando vemos ele falar sobre seu irmão que faleceu muito jovem em um acidente de carro, a câmera faz uma pan para a esquerda e na mesma locação o caixão do irmão está lá, simulando uma igreja. Além dos recursos de cinema, o texto é extremamente dinâmico, que facilita a compreensão do espectador que não está de fato esperando por nada além de causos e curiosidades sobre uma personalidade tão…ímpar.

Sua relação familiar conturbada, por causa de sua sexualidade, é tema de parte da projeção, não à toa fala de sua mãe, seu pai, sua vó e de como ele tornou-se tudo aquilo que essa mais temia. E dessa maneira constrói um imaginário dos preconceitos e da aceitação. Enquanto se expõe na tela com cenas de sexo explícito e claro, seu cu, traça um interessante paralelo entre sua sexualidade e seu desejo intelectual quase insaciável, seu trabalho enquanto artista possui vaidade e reflete sua existência na sociedade como um corpo social. Utiliza os gatilhos do documentário para compor uma farsa intrigante e divertida, todo o jogo ao qual está submetido se mantém entre piadas com signos e diversos outros estereótipos que estão ligados diretamente ao universo gay.

Com um estilo narcísico e autocrítico, vemos uma pintura de Francis Bacon no fundo de um dos cenários de sua casa, ganhar nossa atenção diante de toda aquela ausência de adereços. Não se sente tão destruído imageticamente como o pintor, mas se situa enquanto corpo fora do padrão numa sociedade que rotula e oprime. Curiosamente, todo seu intelecto e estudo não impede diversas superstições engraçadíssimas durante o filme e consegue fazer o ritmo acelerar pontualmente.

Enquanto a câmera o acompanha de perto e dá zooms agressivos em seu rosto, admiramos uma montagem intensa que salta de assuntos com uma inteligência perspicaz, além de perpetuar determinados movimentos corporais e expressões faciais. E afronta em outros momentos determinados dogmas cristãos e de tradição oral clássica.

A história que dá nome ao título, que acaba refletindo muito bem algumas características do protagonista, é sobre uma incessante busca de um poeta a tal da flor azul, independentemente da existência da mesma, o mito que se constrói é mais interessante que a resposta em si, tratando-se de uma jornada muito pessoal e de conquistas diversas. Apresentando Marcelo como uma figura extremamente sexual, escutei alguns comentários no fim da sessão comentando a vulgaridade de certas cenas, em especial a cena de sexo e sexo oral. Acredito tratar-se de um moralismo sem muita coerência com a proposta que está expressa na primeira cena do longa.

Assumidamente cômico e trágico, seu personagem caminha por diversas camadas, transando aqui e estudando ali e toda esse complexo imaginário que flerta com o absurdo da misancene. O imediatismo de diversas questões são tão atuais quanto a temática da Mostra esse ano, por isso, está na competição oficial.

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