A aurora se encontra

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


A construção de uma identidade cultural brasileira circula entre eurocentrismo, matriz africana e indígena. “A Rainha Nzinga chegou” é um documentário dirigido por Nunia Torres e Isabel Casimira Gasparino, de uma humanidade realmente impressionante. Com uma montagem que consegue criar uma estrutura extremamente didática e com uma linha quase narrativa, o filme consegue manter um fluxo extremamente interessante dos rituais que apresenta na tela. É um longa feito com o amor de quem possui a fé necessária para retratar todos aqueles personagens. Os lindíssimos momentos onde ouvimos as rainhas falarem se complementam com cada comunhão das gerações envolvidas. A sabedoria de cada frase é de encher o peito e seu contraponto é suas reclamações sobre os mais novos ou outras questões, que nos provocam risadas.

Nzinga é uma terra mítica, conhecida por pertencer aos reis do Congo. Toda a atmosfera sobre o local é criada anteriormente através de entrevistas e diálogos, que buscam nos situar diretamente no local que estamos prestes a visitar, pois, estra travessia realizada por três gerações diferentes, se dá numa escala mais intimista que a maioria dos cineastas teriam realizado, pelo simples fato de manterem-se distantes do assunto tratado. Cada geração de Rainhas que vamos acompanhando com a progressão do filme possui uma despedida singela, nunca concreta, o que nos deixa um vazio no peito durante a projeção.

Enquanto estamos acompanhando o filme, em determinado momento, escutamos a Rainha falar que pretende viver muito ainda, comenta sobre sua possível substituta e como se daria essa mudança. Passam-se alguns minutos, vemos um homem cantar, todos estão ao redor, a câmera se atém ao homem, admiramos sua voz, sua postura, as expressões de todos, a câmera se move, desce e nos revela que a rainha morreu. O público reagiu, fisicamente e emocionalmente à imagem, a relação estava mais sólida que nunca, pois o carisma da Rainha é algo inconcebível.

O retorno a África, que é o cerne do documentário, é de uma sinceridade ímpar, vemos a montagem priorizar os diálogos e as experiências que estas mulheres têm lá, muito mais que a própria cultura local. Esta escolha é interessante porque revela uma função tão precisa do filme, não importa de fato Brasil, Congo, o que quer seja, além de todos estes rituais e os simbolismos ao qual somos apresentados. Como faz a coroa, todo seu amor por determinadas plantas, debates sobre a diferença da nomenclatura de damos a certas coisas em diferença com os africanos, tudo é tão amistoso, festivo e receptivo, que nos sentimos parte daquele universo, amigos de todos os personagens. E em um de seus muitos momentos incríveis, vemos a Rainha descer um degrau para não apenas olhar os rastros das antigas rainhas, como pisa comumente no sítio. Com um gesto simples mas delicado, caminha sob o local com vagareza e nos demonstra não apenas admiração por todas aquelas figuras onde a única memória concreta é a marca dos pés (o símbolo de humildade em muitas culturas). O contrário de religiões ocidentais, onde veríamos algum ato físico diante dessas caracterizações para buscar aproximação espiritual, vemos que tal atitude é de admiração e de absorver esta experiência tanto na esfera física quanto corporal. E por isso nos encantamos não apenas pela cultura.

Não existe ato mais humano que reconhecer a diferença no próximo, ou de certa maneira, à benevolência. Algumas figuras cristãs na Bíblia funcionam de maneira devota, sem questionar determinados dogmas e imposições seguem aquilo que o homem disse que teria sido a palavra de Deus, o Salvador. No documentário vemos que neste grupo específico, todos respeitam as palavras da Rainha, sim. Porém, alguns questionamentos são feitos e isto enriquece muito a cultura. Somos capazes de enxergar a admiração que a população tem por estas figuras mas sabendo distinguir esta questão da adoração em si, pois, a segunda, gera uma cegueira coletiva, uma histeria social, tão densa, que torna-se impossível criar uma sociedade tão comunitário como a que vemos aqui.

Não é apenas um retrato de um fragmento do Brasil, mas sim do ser humano e da fé que nos cerca. Se negritude é resistência em outros debates, “Rainha Nzinga chegou” é potência cultural e não resiste, combate.

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