O tempo de Yara

Por Vitor Velloso


O realismo no cinema teve seu apogeu durante a década de 40 na Itália, o que apenas serviu de motivação para os cineastas buscarem novos limites estéticos ao estilo. Abbas Fahdel, diretor de “Homeland (Iraq Year Zero)”, realiza “Yara” a partir de sua verve como documentarista, buscando determinada realidade, através da lente, seccionando o mundo à um enquadramento, normalmente político, e tensionando a misancene à uma irrealidade entre a verdade e a ficção.

Trata-se de um projeto com algum traço de interesse narrativo, porém, essa constante busca por recursos documentais, infelizmente, torna o ritmo da história, assombrosamente lento. O que a princípio não seria um problema, afinal, o esgarçamento do tempo dramático é algo minimamente comum no cinema, porém, “Yara” se prende a um núcleo que não possui apelo ao público, muito menos ao manter-se em um ciclo repetitivo de encontros e desencontros, pragmáticos mas com resoluções pouco interessantes. O exercício de esperar que o filme vá desenvolver algum brio no espectador, é completamente frustrante, pois, ao longo da projeção, toda e qualquer vontade de seguir “Yara” (Michelle Wehbe), é desperdiçada à ligação que a mesma tem com sua avó, sua relação com o local e Elias (Elias Freifer). A possibilidade de transformar-se em um profundo estudo de personagem, perde-se com o passar do tempo, dando lugar à prolixidade e diálogos que vão de nada a lugar nenhum.

E não há, factualmente, algo ao qual o público possa se prender, além da protagonista, o que dificulta ainda mais o diálogo, pois, além da interpretação de Wehbe ser amadora (o que funciona parcialmente), nossa ligação com ela é limitada à uma existência momentânea, pouco frutífera, onde vemos elementos do cenário compondo parte de sua personalidade, assim como a figura da avó, e seu romance se desenrolando com uma paciência de Jó. Os breves encontros entre os personagens, são tediosos. O jogo proposto entre os corpos e suas falas, que buscam algum enigmatismo, assim como a própria postura física dos dois em cena, é extremamente aborrecido. E Elias, não é um personagem que ajuda demais nas tensões dramáticas do longa, muito pelo contrário, seu impacto é dado através de terceiros, ou do próprio ato de esperar.

É muito complexo falar sobre “Yara”, trata-se de um projeto bem intencionado, com uma linguagem que de fato sabe para onde caminha, o problema disso tudo é que a cadência fílmica não permite o espectador sentir o mínimo de prazer ao assistir tudo aquilo. O prazer de determinadas composições, como o primeiro plano que nos apresenta Yara, são inegáveis, mas ainda assim, todo o deleite estético não compensa a espera por uma mínima resolução na história da protagonista. Infelizmente, essa esteira à qual o diretor permite que seu filme se mantenha, irá afastar grande parte do público, sem dúvida. E entraremos, mais uma vez, na mesmíssima discussão de sempre, o longa foi filmado visando um nicho minúsculo, que será distribuído internacionalmente à elite, que transformará a história contada, em vitrine e aquário aos turistas de plantão.

Infelizmente, diversos cineastas ao redor do mundo, mantém o hábito de filmar buscando alguma construção específica X ou Y, que apenas enquadra todo seu esforço em uma parcela mínima da população e que não vai conseguir dialogar ou atingir, ninguém. E depois o mesmo autor(a), irá no palanque gritar que as pessoas não assistem filmes nacionais, que não se dão ao luxo de ir no cinema. Minha fala, aqui, torna-se mais geral que diretamente um sermão desnecessário ao Fahdel. Mas é extremamente comum, aristocratas com câmeras, apontarem à dor do próximo, ou o que quer que seja, e buscar apoio popular enquanto flerta com níveis pomposos de forma e temáticas burguesas. Prefiro acreditar na ignorância da fala, que na vil atitude de lucrar e montar holofotes a si, pelo sucesso gratuito e recompensas frágeis do ciclo de masturbação mais egoico da sétima arte, enquanto vemos a verdadeira matéria da obra sendo dilacerada pela lente dos que se recusam a dialogar com a classe que está filmando. Afinal, do que se trata “Roma” do Cuarón?

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