Não justifica a própria existência

Por Pedro Guedes


Lançado em 2011 sob a direção de Olivier Nakache e Éric Toledano, o francês “Intocáveis” era um feel good movie adorável e contagiante que, mesmo contando uma historinha batida e clichê (uma amizade impossível que surgia entre um magnata milionário e um rapaz da periferia), conseguia envolver o espectador através do carisma de seus protagonistas – e a química entre Omar Sy e François Cluzet funcionava perfeitamente porque ambos esbanjavam simpatia, irreverência e carinho mútuo. Além disso, a maneira com que Nakache e Toledano conduziam a narrativa era leve e descompromissada, divertindo o público sem sentir a necessidade de fazê-lo sentir pena dos personagens (um era tetraplégico e viúvo; outro era pobre, brigava com a família e já teve passagem pela polícia).

Para completar, os diretores investiam em uma abordagem estética que seguia de pertinho o padrão das dramédias Hollywoodianas, chegando até mesmo a incluir uma penca de sucessos da Música norte-americana em sua trilha sonora (e isso talvez seja um problema do filme, que se recusava a assumir uma identidade mais… francesa). O que, somado ao sucesso comercial que o longa obteve no mundo inteiro, nos leva à pergunta inevitável: qual a necessidade de Hollywood refilmar “Intocáveis” depois de apenas oito anos?

O resultado não poderia ser diferente: comandado pelo mesmo Neil Burger que dirigiu o medíocre “Sem Limites” e o infame “Divergente”, “Amigos para Sempre” (que título horroroso!) não consegue sequer justificar a própria existência, soando como uma refilmagem dispensável de um filme lançado há pouco tempo e que não dependia de personagens que falassem em inglês para sobreviver. Bom, pelo menos está longe de ser um desastre como “Inseparáveis”, a (nojenta) versão argentina que saiu há dois anos, mas… isso é o mínimo que se espera, não?

Escrito pelo estreante Jon Hartmere, o roteiro não foge muito do que Olivier Nakache e Éric Toledano haviam feito no original: quando enfim termina de cumprir sua pena, Dell começa a buscar um emprego para melhorar as condições de sua família – o que o leva ao apartamento de Phillip, um sujeito rico que ficou tetraplégico depois de sofrer um acidente com parapente e viu sua esposa falecer em decorrência de um câncer. À primeira vista, não tinha como a relação entre os dois dar certo, já que Dell é inexperiente demais para cuidar de um deficiente físico; contudo, o que Phillip buscava era justamente alguém que o tratasse como igual, sem se concentrar em sua tetraplegia. A partir daí, claro, surge uma amizade improvável.

Ou seja: nada muito diferente do que havia sido mostrado em “Intocáveis” – e, verdade seja dita, dificilmente seria diferente, pois a premissa do original era simples e objetiva demais para ser mudada radicalmente (um rapaz descontraído e um rico tetraplégico se tornam amigos; o que mais dá para acrescentar nisso?). De todo modo, existem alguns momentos específicos onde Hartmere até tenta fazer algo que não seja um “Ctrl+C/Ctrl+V” do projeto de 2011, criando uma ou outra sequência inédita e invertendo a ordem de certos acontecimentos (principalmente na segunda metade da projeção). Às vezes, essas mudanças favorecem a nova versão (o motivo que leva Dell e Phillip a se afastarem no fim do segundo ato é mais convincente); em outros casos, acabam soando forçadas e convenientes (na última cena do longa, descobrimos que Phillip tem potencial para se relacionar com… outro rosto conhecido).

Ao mesmo tempo, há certos elementos do filme original que são deixados de lado nesta nova versão (como a filha de Phillip, que pouco tinha a acrescentar na trama), ao passo que várias cenas parecem ter sido reduzidas ou inteiramente descartadas (e isso, por outro lado, torna-se um problema, pois existem momentos do longa que soam incompletos nesta refilmagem e dependem da memória do espectador para preenchê-los). Mas o pior, no entanto, é a sensação de não haver frescor ou novidade alguma – e se o roteiro de Nakache e Toledano ao menos conseguia desenvolver a narrativa e os personagens de maneira irreverente, sagaz e divertida, Hartmere sucumbe aos clichês que estão naturalmente presentes na história e se rende ao melodrama sem se esforçar muito para contorná-lo, o que dá origem a uma série de diálogos esquemáticos que servem basicamente para explicar para o espectador o que ele deve sentir em cada sequência (e nunca é bom sinal quando uma simples conversa soa mais como algo roteirizado do que como algo que os personagens diriam organicamente).

Dirigido sem nenhuma sutileza por Neil Burger, “Amigos para Sempre” começa com um flashfoward que repete aquele que dava início à versão original, chegando ao ponto de repetir enquadramentos e empregar uma trilha sonora idêntica – e, neste instante, o filme desperta um pouco de vergonha alheia, pois o resultado fica parecendo uma imitação capenga. Não que o resto da obra mantenha este sentimento constrangedor; o que fica até o final, porém, é a mediocridade estética do diretor, que decupa cada sequência como se estivesse pensando em uma telenovela. E se Nakache e Toledano evitavam o melodrama de forma admirável, saltando do bom humor à seriedade de maneira pontual e eficaz, o mesmo não pode ser dito sobre Burger, que exagera tanto no pastelão que ocorre nos momentos engraçadinhos (qual a graça de ver Phillip e Dell comprando 15 cachorros-quentes?) quanto no sentimentalismo presente nas sequências mais pesadas (o que dizer sobre aquela cena em que Dell começa a quebrar alguns pertences valiosíssimos de Phillip?).

Aliás, a diferença entre “Intocáveis” e “Amigos para Sempre” pode ser sentida através da trilha sonora: se Ludovico Einaudi empregava somente alguns toques de piano nos momentos em que estes realmente tinham algo a acrescentar, Rob Simonsen apela para todas as obviedades do mundo e usa suas composições como uma forma de mastigar, para o espectador, tudo que ele deverá sentir do início ao fim do filme (os momentos dramáticos, alegres, tensos, engraçadinhos etc). Para completar, a fotografia de Stuart Dryburgh é limitada por Neil Burger e por sua falta de ambição visual, ao passo que a montagem de Naomi Geraghty não tem muito que fazer além de recriar a estrutura vista no longa original (e de maneira pouco inspirada).

Por sorte, “Amigos para Sempre” conta com um elemento que o favorece bastante: a dinâmica entre Dell e Phillip – e, para que a interação dos dois funcione, é importante que ambos sejam interpretados de maneira eficiente; o que, felizmente, acontece aqui. Sem exagerar naqueles gritinhos agudos e irritantes que se tornaram tão frequentes em suas composições, Kevin Hart encarna Dell como um sujeito que claramente busca compensar os erros que cometeu no passado, mas que não deixa essa preocupação eliminar sua irreverência e seu bom humor. Já Bryan Cranston é o grande destaque desta produção, pois confere a dose certa de intensidade a um personagem que carrega uma série de traumas dolorosos e, ao mesmo tempo, parece se divertir sempre que é contagiado pela vivacidade de seu amigo – e o modo como Cranston desvia seu olhar ao perceber que Dell o fará passar por uma situação meio apertada, logo na primeira cena do filme, é sutil, mas surpreendentemente engraçado. E há Nicole Kidman, que, mesmo presa a uma personagem aborrecida e entediada, se sai bem ao adicionar a ela uma leveza pontual e um sotaque que complementa sua personalidade.

Só é uma pena, porém, que a produção se sinta obrigada a transformar sua personagem em uma mulher heterossexual (na versão original, ela era assumidamente lésbica). E isto faz “Amigos para Sempre” soar não apenas falho, mas covarde e até meio questionável em suas decisões – aliás, a cena em que Dell e Phillip vão a uma ópera foi complementada desta vez, já que há um trecho inédito onde o primeiro se descobre fascinado pela apresentação à qual está assistindo e se deixa seduzir pelos hábitos da elite que tanto ridicularizava até poucos minutos (como se Phillip “ensinasse” a Dell o que é “cultura de verdade”).

E são estes momentos que enfraquecem – e muito – “Amigos para Sempre”; que, mais uma vez, só não é uma experiência dolorosa graças às duas performances centrais. O que também não é o suficiente para fazer o filme se destacar por si só.

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