Antes tarde do que nunca

Por Pedro Guedes


Em certo momento de “Bumblebee”, o primeiro spin-off produzido a partir da franquia “Transformers”, a adolescente Charlie Watson se refere ao autobot que dá título ao filme não apenas como um “guerreiro”, mas como uma “criatura que tem alma e sentimentos” (ou algo assim). Quando ela falou isso, confesso que comecei a pensar nisso: ora, nos cinco longas, Bumblebee havia sido retratado somente como um idiota atrapalhado – saber se ele tinha ou não sentimentos era uma questão irrelevante. Assim, quando o mesmo robô surgiu, em sua aventura solo, interagindo carinhosamente com uma menina, se esforçando para que ela se sentisse bem e correndo para salvá-la enquanto fugia do Exército, me dei conta de que, pela primeira vez em todos esses anos, um capítulo da série “Transformers” foi capaz de fazer aquilo que deveria ter feito desde o início: levar o espectador a gostar e a se importar com seus personagens.

Ambientado nos anos 1980, bem antes dos eventos retratados nos longas dirigidos por Michael Bay, “Bumblebee” começa com uma ótima sequência de ação em Cybertron – o planeta dos Transformers –, quando os autobots (os robôs do bem) e os decepticons (os robôs do mal) estão no meio de um conflito cada vez maior. Depois que o líder da resistência Optimus Prime resolve mandar o autobot Bumblebee à Terra, dois decepticons são enviados para persegui-lo – e ao chegar em solo terrestre, o personagem-título acaba conhecendo Charlie Watson, uma adolescente socialmente desajustada que se tornou órfã há pouco tempo e desenvolve uma relação de amizade com o divertido e sensível robô.

Sim, é verdade que o roteiro de Christina Hodson (que ainda está em início de carreira) volta a investir em uma série de clichês presentes em centenas de outras obras: a guerra entre autobots e decepticons pela soberania em Cybertron, por exemplo, nunca vai deixar de ser o centro da franquia “Transformers”, ao passo que a relação entre Bumblebee e Charlie representa mais uma daquelas amizades entre um ser humano frágil e um brutamontes que, por dentro, carrega um coração mole (pensem em “O Gigante de Ferro”, “Como Treinar o Seu Dragão”, “Operação Big Hero”, etc). Além disso, o arco de Charlie é, por si só, uma coletânea de obviedades: a garota está se adaptando ao trauma de ter perdido o querido pai, admira um rapaz que não se importa com ela e tem sérias dificuldades de socializar na escola (aliás, suas rivais de colégio se resumem às estereotipadas líderes de torcida fúteis e esnobes que são quase que obrigatórias em filmes como este).

Em contrapartida, “Bumblebee” conta com a vantagem de ter algo que sempre faltou à franquia “Transformers”: sentimento. Ancorando-se na relação entre Charlie e Bumblebee, o filme é particularmente hábil ao estabelecer o afeto entre dois indivíduos que, a princípio, não parecem ter muito em comum – e não é à toa que, à medida que o filme avança, fica cada vez mais claro que um preenche um vazio emocional que havia no outro: se Bumblebee enxerga Charlie como a única ligação que ele terá com a Humanidade, a menina vê no autobot uma maneira de compensar o vácuo deixado pela ausência de seu pai. Mas o mais importante é que a amizade entre a dupla soa palpável e carinhosa, o que se torna possível graças à dinâmica cheia de entusiasmo e sinceridade que parece existir entre os dois (e há momentos surpreendentemente tocantes no filme, o que é inesperado).

Outro elemento indispensável para o sucesso do longa é, claro, o carisma dos personagens – algo que, felizmente, “Bumblebee” tem de sobra: contando com um design bem menos bagunçado do que aquele que havia sido criado para os filmes anteriores, o personagem-título exibe uma expressão sempre ingênua e indefesa que se contrasta ao seu porte físico imponente – e embora suas trapalhadas provoquem o riso, isto não anula sua doçura e a angústia que sente a partir do terceiro ato. Ao mesmo tempo, a carismática Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar pela refilmagem de “Bravura Indômita”) transforma a co-protagonista Charlie em uma adolescente que, mesmo calcada em um arquétipo (o da heroína órfã que carece de traquejo social), conquista a simpatia do público graças à sua personalidade levemente rebelde e irreverente, mas que mesmo assim sente o peso que carrega nas costas – e é admirável que o roteiro encerre o arco de Charlie com elegância, fazendo com que ela tenha que superar um trauma pessoal para completar uma ação. Por fim, o jovem Jorge Lendeborg Jr. (que se destacou no recente “Com Amor, Simon”) se sai razoavelmente bem ao passo que o lutador John Cena surge como uma figura divertidamente cafona (se fosse Michael Bay dirigindo o filme, o personagem provavelmente seria levado a sério e soaria ridículo em vez de divertido).

Com um ritmo bem mais ágil do que os cinco longas anteriores, que sempre duravam duas (intermináveis) horas e meia, “Bumblebee” reconhece e aceita a tolice que existe em sua premissa e abraça a simplicidade da sua história sem cometer o erro de conferir ares excessivamente grandiosos ao que é narrado – ao contrário do que Michael Bay fazia em seus “Transformers”, que complicavam demais suas tramas a ponto de torná-las confusas, entediantes e sem sentido. Isto, inclusive, é mérito não apenas do roteiro, mas da direção de Travis Knight, que, responsável pelo ótimo “Kubo e as Cordas Mágicas”, transforma o filme em uma aventura leve, divertida e que salta do bom humor à ação com uma fluidez admirável – e ainda que existam piadas malsucedidas, há também alguns momentos cômicos que conseguem fazer o espectador rir e, ao mesmo tempo, desenvolver a interação entre os personagens.

Mas um dos maiores alívios representados por “Bumblebee” consiste na eficácia de suas sequências de ação – e se Michael Bay desperdiçava o potencial dos Transformers ao trazê-los lutando de forma caótica, incompreensível e desorganizada, Travis Knight segue o caminho oposto e faz algo que eu nunca imaginei que fosse ver em um filme desta franquia: um plano que dure mais do que cinco segundos. Levando o espectador a se importar com o que está acontecendo e a torcer pela vitória dos protagonistas, o diretor acerta ao rodar planos suficientemente abertos e que durem tempo suficiente, permitindo que o público entenda a lógica espacial das cenas, onde os personagens se situam nos cenários e como funciona a coreografia dos robôs enquanto estes lutam. Por outro lado, a trilha composta por Dario Marianelli (colaborador habitual de Joe Wright) peca pelo excesso, fazendo questão de mastigar o sentimento predominante em cada cena (os momentos dramáticos, os alegres, os engraçadinhos, os grandiosos, etc).

Exagerando também na quantidade de vezes em que tenta ostentar suas muitas referências aos anos 1980 (como ao trazer um personagem dizendo “Eu quero ver o que o Alf fará hoje!”), “Bumblebee” ainda assim é fortalecido pelo bom trabalho do designer de produção Sean Haworth, que reconstrói aquela década específica através de arquiteturas, veículos e objetos de cena que imediatamente remetem à cultura oitentista (como as tevês de tubo e os pôsteres de “Alien” e “Indiana Jones”).

Depois de dez anos e cinco filmes, a franquia “Transformers” enfim produziu um capítulo que funcione como um divertimento legítimo e honesto. Agora, resta torcer para que “Bumblebee” seja não um ponto fora da curva, mas um indicativo de que a série finalmente encontrou o caminho certo.

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