Boring in Paris

Por Vitor Velloso


E lá vamos nós para mais um longa de drama burguês de época, estrelado por Keira Knightley, desta vez interpretando “Colette”, uma escritora que tem sua autoria roubada por seu próprio marido, Willy (Dominic West). E como de costume, ritmo não é um dos fortes do projeto.

Dirigido por Wash Westmoreland, que realizou “Para sempre Alice”, o filme vai de encontro a todos os estereótipos clássicos do subgênero. Enquanto o diretor se esforça a fim de criar uma misancene acolhedora, há um trabalho de enrijecer a relação dos atores na proposta. A ideia é simples, seguir o fluxo do relacionamento da protagonista, o problema é que toda esse panorama dramático, possui, claramente, um desfecho complexo e que eleva o caráter da personagem a algum arco sólido, infelizmente, isso se dá com uma progressão assombrosamente lenta. E eu compreendo a intenção do diretor, aprofundar na psique da Colette, para que possamos compreender a origem do fim, porém, a distância entre este final e toda a construção inicial, é colossal.

Não apenas em duração, mas em tom, a narrativa parece ser triturada à um formato comercial, o que acelera a história, mas prejudica o andamento da mesma. Se em um primeiro momento somos apresentados a um estilo de vida no campo, com pequenas delicadezas ao seu redor, logo acompanhamos uma Paris boêmia, totalmente em língua inglesa, sendo conduzida por Willy. Em seguida estamos em um confronto matrimonial e assim sucessivamente. Os saltos narrativos não comprometem a compreensão do espectador, mas influencia completamente em como enxergamos a protagonista, pois, suas atitudes são moldadas a partir dos acontecimentos. Esse problema é tamanho, que até mesmo o moralismo do período, ou de parte do público, é modificado. Veja bem, o longa não possui julgamento algum quanto ao que retrata, mas sua montagem busca uma velocidade que passa por cima de determinadas nuances do assunto, que irá segregar parte da audiência.

Esta diferença é crucial ao filme, pois, a personagem possui uma curiosidade que transforma-se em descoberta, com o sexo feminino. A postura inicial dela é provocação à sociedade, mas também ao marido, um mulherengo com limitações morais, onde a maneira como é visto pelas pessoas molda seu caráter. Impulsivo e galante, comete uma sucessão de erros que justifica as dúvidas de Colette sobre sua personalidade e a confiança possível em um casamento frágil e instável feito a vida que levam. Curiosamente, o longa também. Uma das maiores frustrações de assistir à “Colette” é que a recompensa, praticamente não existe. São quase duas horas assistindo uma personagem interessante, em uma trama funcional, mas com uma condução completamente problemática, o que nos dá a sensação de vazio completo. Não é desagradável, é apenas… medíocre. Pior, é nítido que o diretor possui consciência do que tem nas mãos, têm seus méritos bem definidos, alguns movimentos de câmera em diálogos, pequenas sequências, uma especificamente, onde vemos uma intérprete cantar e um ator performar, mas nada disso amarra o projeto de forma concreta. No fim, a experiência se resume a observar o casamento da protagonista, suas reações, determinadas atitudes quanto ao mesmo, seu processo de escrita, seu marido usufruindo de seu talento a fim de fazer algum dinheiro, sua ganância com o sucesso, uma pseudo-luxúria se desencadeando. E assim que tudo isso acontece, finalmente, chegamos a algum lugar, a derradeira mudança em Colette, o que justifica o filme. Importante dizer que a película não se prende ao caráter sexual, é de fato um estudo de personagem acerca da escritora, porém, todo seu desenvolvimento se dá visando acontecimentos futuros, não à toa, são comuns digressões narrativas que buscam explorar os desejos do casal, em especial o dela.

Os atores estão bem, os dois tem química e a presença deles em cena é quase volátil. Como a misancene é rígida, dado o período em que se passa, que possuía um esgarçamento do tempo maior que estamos acostumados, a imagem compõe o quadro de maneira quase orgânica, por isso, é comum olharmos o filme e ver uma beleza e aproximação digna de nota, mas, ainda assim, não consegue se destacar diante de todos os outros problemas, pois, o interesse do público se esvai com a progressão.

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