Para além da voz do corpo

Por Gabriel Silveira


Curioso como a persona de Maria Callas parece fazer um esforço para consolidar-se até mesmo antes de abrir a boca para emitir qualquer ruído que seja ou até mesmo estar em movimento. Desde um primeiro estudo de qualquer imagem de divulgação do filme encontramos aquela moça com com aquele olhar ambíguo que mais parece procurar estabelecer uma relação de intimidação com quem olha ao mesmo tempo que exala uma vontade de construir uma aura de fragilidade que acredita ser uma natureza do feminino, como uma faceta, camuflagem, mas não para esconder-se, para ser o predador em si.

A condição de quem foram lá as mentes por trás do estabelecimento desta persona, numa superfície, soam como uma submersão completa nesta faceta misteriosa. Quem deu início a história deste espírito? Sua mãe com a criação de uma mão de ferro obstinada a procura do sucesso? O clube de mecenas e o circuito musical da alta burguesia? Ou a própria Maria que inventou Callas? Se dependesse do filme de Tom Volf, nem a própria seria capaz de responder, mas não como se isso fosse culpa de nenhuma das partes envolvidas.

É quase como se não houvesse uma Callas pré-rainha absoluta da ópera moderna, como se desde menina a predisposição de seu corpo já fosse a de dominar os palcos e performar aquela outra dimensão transcendental da capacidade de encenação humana. Há o reconhecimento das consequências e dos custos, mas tudo é levado como se aquilo fosse o que tivesse que ser. Ter algum contato com uma dimensão de um senso de identidade despudorado e verdadeiramente cândido de Maria parece algo inviável pela condição da história em si. Porque Volf foi fundo dentro da conjuntura do trabalho de pesquisa que a produção do projeto permitiu, mas, acredito que, somente em uma perspectiva imagética, por um ato de preservação da presença, do estatuto, da imagem de Maria Callas o diretor foi capaz de trazer aquela mulher de seja qual for lá a dimensão de onde está agora. Isso por conta da condição de fidelidade física daquela material de origem da obra. Quando menciono e dou meus parabéns a condição do time de produção do filme não é à toa e somente um elogio a capacidade e potência de seus esforços durante a pesquisa dentro do acervo que compõe a propriedade do herdeiros dos royalties da atriz, mais pelo ato de preservação de todo aquele material de celulose.

Grande parte do material filmado em 35mm simplesmente parece ter sido filmado ontem pela condição de integridade da imagem, como uma produção que resolveu rodar um filme de ópera de época. A presença de todo aquele arquivo, pelo menos em sua grande maioria escaneado em um 4K que chega a tinir, tornava-se um combustível de admiração para qualquer encenação que fosse a que estivesse acontecendo. Porque o imenso prazer de poder assistir aqueles movimentos e aquele ato de Maria de existir em um palco por si só, brilhando com todo o seu charme ambíguo e felino é um privilégio espetacular, literalmente.

Mas infelizmente o encanto da obra termina por aqui. Volf tenta trabalhar a construção do das inúmeras linhas narrativa dos fragmentos de drama espalhados pelas memórias de de Callas. E até certo ponto há uma construção de diferentes eixos intercambiáveis de narração dramática que parecem funcionar muito bem quando por si sós. Como a maioria das imagens em 35mm apresentam-se majoritariamente como produções jornalísticas que possuem sempre um distanciamento que nunca é gélido, mas, talvez, fantasmagórico dentro daquela condição de faceta de diva que Callas veste para interagir com aqueles que filmam, sempre em uma distância que aparenta disfarçar-se de uma simpatia de mecanismo de defesa. Dentro da condição tumultuosa que a atriz passou em seu relacionamento com as lentes da mídia mainstream, tal comportamento consolida-se como a medida mais lógica. É somente uma pena que nem mesmo dentro dos outros materiais audiovisuais que possuíam uma condição de afeto mais sincera, como nos filmes caseiros de 8mm, não haja tanta informação informação falada de Maria sobre si, além da expressão das risadas e sorrisos mais espontâneos. A única medida neste contato com essa Maria que se mostraria verdadeiramente Maria se dá por seus desabafos escritos em cartas e notas pessoais, tornando-se ainda mais estranho como esta é a única voz de Callas que não é proferida por seu próprio corpo.

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