A realidade rasgada

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2018


Exibido no Festival do Rio 2018, na mostra não competitiva, o novo filme do realizador gaúcho Jorge Furtado (de “Ilha das Flores”, “Houve Uma Vez Dois Verões”, “Saneamento Básico – O Filme”), da Casa de Cinema de Porto Alegre (que produziu “Morto não Fala”, exibido no mesmo festival), busca importar uma atmosfera de saudosismo em uma contemporaneidade mais atemporal. “Rasga Coração” traz uma existencial nostalgia sócio-comportamental, a mesma que o intérprete brasiliense Renato Russo, do icônico grupo Legião Urbana, já cantou em “Índios”.

As estrofes da música “Quem me dera ao menos uma vez; Explicar o que ninguém consegue entender; Que o que aconteceu ainda está por vir; E o futuro não é mais como era antigamente (…) E é só você que tem a; Cura pro meu vício de insistir; Nessa saudade que eu sinto; De tudo que eu ainda não vi”.

“Rasga Coração” é e não é um filme político, apesar que política está em todas as micro-ações de todos os indivíduos sociais em todos os mínimos instantes de nossos cotidianos. Sim, é exatamente isso: um filme sobre a naturalização da rotina e sobre a vida que oscila como um pêndulo (já dizia Schopenhauer), visto que o passado sempre assalta o presente em suas memórias, mudanças e repetições de padrões. É o “não entender nada da realidade” versus o “cargo público gratificado” para “ajudar”, “abrindo mão e amarelando por causa de uma roupa”.

É um longa-metragem sobre a utopia idealista e imatura dos jovens (que se acham super-homens e que podem mudar o mundo com suas dietas veganas e com restrição de glúten) versus a maturidade sobrevivente da vida adulta, que precisa prover os mimos e cúmplices experimentos dos filhos (ricos que vivem às custas dos pais e “enaltecem a pobreza”) em um processo de construção identitária. As lutas do passado são abduzidas em uma sensatez alienante, em que o dinheiro e os bens materiais acabam por se tornar o condutor aos novos sonhos da perfeita vivência familiar.

“Rasga Coração” também é uma crítica advogado do diabo em questionamentos de talvez não haver certos e errados. O universo maniqueísta almejado é ilusório e delimitador. Baseado na obra de Odualdo Vianna (título emprestado de uma canção de Anacleto de Medeiros), o filme quer imergir o espectador em uma realidade sensorial protegida pela ficção. É uma fábula moderna à moda de Nelson Rodrigues, que mostra a intimidade da vida como ela é. Tudo por um tom etéreo com seus drones que sobrevoam as árvores dos prédios no cenário do bairro Copacabana, no Rio de Janeiro.

A narrativa conduz-se por intercalação (não indicativa explicitamente) de épocas, de acontecimentos temporais, com reflexos e ecos do que se vivencia hoje e do que aconteceu no passado. “Goji Berry” versus “miojo”. É uma crônica dramática comparativa. Manguari Pistolão (Marco Ricca) é ao mesmo tempo um herói e um homem comum, casado com a típica dona de casa “mandona com jeitinho oportunista” Nena (Drica Moraes, irretocável em seu papel), causando culpas e chantagens emocionais.

Atuante na militância em boa parte da vida, agora ele terá que enfrentar o mesmo que seu pai enfrentou: o seu filho Luca (Chay Suede), um Hipster maquiado , usando saias e unhas pintadas, pretende deixar a faculdade de Medicina e ingressar de vez no movimento hippie. Em um crescente conflito com as escolhas do filho, ele verá seu passado (João Pedro Zappa) e seu “fiel escudeiro amigo” Lorde Bundinha (George Sauma) sendo re-inventado na figura dele. O “produzir”, o “acumular”, o não “medo de viver”, o “espírito competitivo”, a pressão dos pais à estabilidade. São imaturos, ingênuos, dramáticos, hiperbólicos, trágicos, sensíveis e utópicos, só com “força potência”.

Odualvo Vianna Filho, o Vianinha, paulistano, foi um dramaturgo, ator (de “Eles não usam black-tie”) e diretor de teatro e televisão, militante comunista brasileiro, cônjuge de Odete Lara. O longa-metragem é baseado em sua última obra homônima, “Rasga Coração”, de 1974, ano que faleceu. “Rasga Coração” constrói com despretensão e sensibilidade emocional (não clichê e tampouco manipuladora ao sentimentalismo) a história que envolve mais com a naturalidade típica do cotidiano daqueles que potencializam seus sonhos e ideologias. “Quem vive na merda é mosca”, diz-se.

É também um filme viagem de tempo. Que desperta apatias pelas peças pregadas da mente, que encontram o realismo fantástico, transcendental, metafórico, psicológico e sobrenatural das semelhanças do olhar “animado” de “mais” um morto no calçadão (um “marginal” sem “importância”), aludindo a música “Construção”, de Chico Buarque (“morreu na contramão atrapalhando o trânsito”). “Isso que vale a vida humana”, diz com morbidez sarcástica dos detalhes interferências da “normalidade” do cotidiano. “A marca do sangue, só isso fica, depois passa”, diz com realismo poético espirituoso e resignado. “O povo é igual corda, você não empurra, você puxa”, diz-se com cinismo “mantendo a ordem” com suas frases pontuas sobre democracia e sobre a vida Comuna. “Brigar é o sal da terra”, diz-se. É LSD versus Êxtase.

Entre discussões, conflitos, confrontos, debates, Beatnicks modernos, confissões, rebatidas passivas-agressivas, limites explosivos, ofensas, políticas, protestos, hipocrisias desmascaradas, pseudo moralidades em xeque, “reflexos e desejos em dores”, frustrações de querer mudar o mundo, surf music, pichações, pequenas revoltas, “Rasga Coração” é sobre até quando se pode ir uma luta. Sobre novos revolucionários “Todynho” (em um mundo que o Merthiolate não arde mais). São híbridos, fluidos, andrógenos, artísticos, boêmicos e performáticos. “Cagaço também é uma forma de ideologia”, “A honra não passa de uma placa na porta de um defunto”, “Jornal é uma imprensa morta”, “Gênero é política”. Há um que de “O Anjo”, de Luis Ortega, com “A Longa Noite de Francisco Sanctis”, de Andrea Testa e Francisco Márquez, ora inferindo à cena do chá do filme “Corra!”, de Jordan Peele.

É sobre velhos problemas em novas recentes vidas. Sobre não “conversas na mesma bolha de quem já concorda”. Sobre ações “diretas” sem “palavras”. Sobre os mesmos preconceitos racistas. “A pessoa clica na vida com um mouse: você é um homem ou um mouse”. É um filme que se deixa “flutuar”, que se deixa “experimentar”, que busca manter um diálogo aberto e livre analisando o sistema que “corrompe” mas também que “alimenta”. “Rasga Coração” consegue conjugar maestrias interpretativas com a qualidade da técnica e com o controle absoluto da direção de Jorge Furtado. Um filme que rasga a própria realidade.

“Rasga Coração” tem produção executiva de Nora Goulart, direção de fotografia de Glauco Firpo, direção de arte de Fiapo Barth e William Valduga, direção de produção de Bel Merel e Glauco Urbim, figurinos de Rô Cortinhas, caracterização de Britney, música original de Maurício Nader e montagem de Giba Assis Brasil. As filmagens ocorreram em Porto Alegre no final de 2017.

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