Ciranda dos de dentro

Por Gabriel Silveira


Em um primeiro contato com “O beijo no asfalto” me deparei com a tentativa de compreender a situação. Murilo Benicio, com seu poderio de star power global, articula um projeto onde tira de sua cartola quase que um royal flush de estrelas do stars system tupiniquim ao lado das lentes críticas de Walter Carvalho para trabalhar uma montagem cinematográfica em cima do texto (quase) homônimo de Nelson Rodrigues. Um caso que já vem pronto para se encaixar no perfil da caixa das inúmeras estrelas diretorxs tardixs, no entanto, um que ainda parecia mais como um coringa a distância.

E essa condição de coringa foi desfazendo-se por partes através de surpresas com o desenrolar da projeção. Uma já dá-se com o curioso fato de que não tinha me tocado ou lido em lugar algum (nem mesmo percebido nos créditos iniciais) que a direção de fotografia era de Walter Carvalho, por conta disso, deixei-me levar pelo entusiasmo com a surpresa agradável daquela masturbação estética do preto e branco enterrado em um contraste hipnótico da climática encenação do atropelamento de ônibus em uma candelária 2018 que foi gatilho do beijo que centrifuga no cerne da narrativa. confesso que foi difícil não morder a isca da estetização. Seguindo para fora daquela candelária contemporânea que fazia-se de palco para personagens da década de 60 caímos na ciranda cênica que Benício seguiria tentando desafiar-se a cantar

Num salto a encenação é jogada para uns planos de estabelecimento flutuantes de um esqueleto de set. Naquele Set, Benício dá início ao drama do beijo e dá-se início literalmente com o drama, a leitura deste. Naquele Set o jogo do drama é esmiuçado na mesa de leitura pelo elenco e o preparador do mesmo, enquanto Benício acompanha o movimento dos mesmo passivamente sentado em uma cadeira que parecia mais posicionar-se intencionalmente no meio exato da penumbra, com um pé sob luz-principal que vinha como um feixe do céu para destacar e energizar a cena e o outro sob as sombras do resto do Set apagado onde gruas e trilhos coreografavam-se no silêncio. O homem nunca aparece abrindo a boca uma vez se quer durante a cena mas externa o que parecia um desejo de entrega a toda a cena admirável.

No momento da primeira leitura daquela cena, procurava eixos de abertura daquelas sequências que entregasse algum indício de encenação decupada/roteirizada, no entanto, o diretor afirmou após a projeção que a diária onde ocorreu a leitura teria sido a primeira e única daquele momento do filme, onde trabalhou-se com quatro horas de material daquelas discussões. Afirmava ele que tudo que foi dialogado ali foi da eventualidade mais orgânica por parte do elenco e, de fato, há certos discursos ali, especialmente por parte de Fernanda Montenegro, que se efetivam como “irroterizaveis”. Mas, durante a projeção era muito difícil ceder a essa crença na cena por conta de seus inúmeros eixos de um mesmo acontecimento, que só poderiam indicar a utilização de um número específico de câmeras que não parecia fazer jus a proporção da produção, ou, a simples validação de certos momentos da mesa terem sido roteirizados de fato.

No entanto, é justamente nesta premissa que o filme de Benício finca sua base, nesse jogo de dito e desdito que não é nada de revolucionário, mas, é de uma singeleza e vontade de entregar-se a uma possibilidade lúdica tão potente em relação a própria condição de vantagem que a produção esbanja, em poder brincar com todos aqueles “brinquedos”; seja o Set munido de um arsenal digno de um produção independente gringa ou o elenco pré-disposto e capacitado com todo o seu star power e, acima de tudo; ter a Fernanda Montenegro a sua disposição para procurar entender seu personagem de frente para a contra-cena que, por sinal, possui uma curtíssima e quase criminosa presença na narrativa. É nessa que obra acaba efetivando-se como um respiro revigorante dentro desta conjuntura de sua realização. Sim, há alguns e outros momentos frustrantes que não passavam de descompassos nas mãos que seguravam a montagem que permitia algumas quebras de mise-en-scene desnecessárias, chegando a compor uns enquadramentos que mais pareciam preguiçosos dentro de seu fluir, isso ao lado, também, de uma trilha musical manipuladora que parecia ter um imenso tesão de entrar de fininho em cena para borrar toda a entrega de certas performances potentes. Mas, no final, acredito que uma vista grossa para tais tropeços é válida quando lembro da energia de potência absurda que foi alcançada no grande clímax da narrativa da personagem de Débora Falabella e como aquele cândido desejo de invenção efetivou-se primorosamente por pontos específicos da obra. Que a vontade de brincar continue assim.

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