O traço definitivo de uma História

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2017


“Henfil”, de Angela Zoe (de “Meu nome é Jacque”), transpassa exatamente o que um documentário deve abordar: conhecimento, emoção e verdade, aprofundando curiosidades, esclarecendo fatos e desenhando um retrato que respeite su homenageado. Sim, este cumpre todos estes requisitos e muitos outros. O documentário apresenta a vida do cartunista e ativista Henfil e, através de narrativas paralelas, explora um movimento de descoberta do artista junto aos jovens a partir de uma turma de animadores que tenta trazer seu trabalho para os dias atuais. O filme ainda traz revelações sobre a maneira como o artista usou seus desenhos como um aparato para driblar a censura política, e também como um recurso para lidar com sua saúde frágil, causada pela hemofilia, e para expor sua inquietação criativa. O filme só tem um ponto negativo: é curto demais com seus setenta minutos. Sua diretora disse que isto é proposital para que fiquemos com um “gostinho de quero mais”. E nós ficamos.

O pílula-crítica acima escrita durante o Festival do Rio 2017 estimulou o que só os melhores filmes fazem: a postergação do escrever a fim de conservar a pluralidade do sentir. Mas o prazo chega ao fim. E a técnica agora precisa prevalecer e galgar maiores análises e definições. “Henfil” é isso. Muito mais que um filme militante, homenagem e necessário. É a possibilidade de embarcar na perpetuação intimista de sua obra e vida, que se intercalam como um único elemento. É a “hemofilia correndo atrás dele”; é a “aula Pasquim” (o “mais experiente”, “Era o George Harrison”, “desenhava o que queria” para “multidões”, disse Jaguar); são as memórias espirituosas dos depoentes (“apesar dele ser Flamengo”), tudo em uma narrativa moderna que traz a essência sádica de seu humor “ácido irônico” (ora escatológico de “porcarias”) ao construir gravuras, linhas, formas e cores.

O documentário apresenta a vida do cartunista e ativista Henfil e, através de narrativas paralelas, explora um movimento de descoberta do artista junto aos jovens a partir de uma turma de animadores que tenta trazer seu trabalho para os dias atuais. O filme ainda traz revelações sobre a maneira como o artista usou seus desenhos como um aparato para driblar a censura política, e também como um recurso para lidar com sua saúde frágil, causada pela hemofilia, e para expor sua inquietação criativa. E a luta “interna”. Com depoimentos lembranças, mais pessoais, de amigos que conviveram com Henfil, entre eles Ziraldo, Millor Fernandes, Lucas Mendes.

A maestria do filme, além de sua qualidade técnica e condução por um controle absoluto de sua diretora, é sem sombras de dúvidas seus adjetivos que desenham Henfil, um deles “intelectual de borda”. É uma tradução fanfarronice. Contudo sem deixar de abordar os momentos mais icônicos, como o “enterro de Elis Regina” como uma “regente de uma orquestra de Hitler”. Nosso cartunista em seus desenhos enterrou também Fernanda Montenegro, Clarice Lispector, Simonal. “Era um craque e sabia como ninguém escapar. Nem tão rápido, nem tão devagar”. Era “provocativo”, ajudado por um “clima de paranoia (e excesso de medo) ótimo para criar histerias. Era uma “criança se divertindo”. “O papel do artista é decodificar”, diz-se. E a narrativa une alunos para montar uma animação sobre ele.

“Henfil” é sobre o “bode intelectual que comeu o capital”. Sobre o ser “sacana”. Sobre o “caos” ao redor. Sobre seus desenhos. Suas “exclamações”. “Primeiro desenhou o lugar, depois foi para o lugar que desenhou” (“Nordeste, a reserva cultural do país” – em “ritmo de discoteca, mas não o xaxado”). A “hemofilia dava uma urgência na vida dele”, como se Henfil não pudesse perder tempo e se preocupar com miudezas e futilidades. “Hoje é urgente e amanhã é a morte”, diz-se por “rabiscos expressivos”. Ele “combatia o bom combate” com seu “traço nervoso e sujos”. Impotência de hoje, a empatia, a alma popular, nosso homenageado “sabia conduzir as massas”, colocando “brasileiros como baratas”. Um “multi-artista” de “ideias rápidas” em que seu “equilíbrio era seu desequilíbrio”. Eram “esboços da vida”. Metafórica, direta, conceitual e politicamente existencial, visto a necessidade de exílio por “exceder” a “liberdade”. “Pé sem calcanhar?” e “Minar o sistema americano por dentro”. “Um cara que muda para São Paulo está morto”, diz e ri com seu próprio sarcástico zoado.

É um documento sobre sua “humocracia”. Viveu “criticamente” tendo seu “humor para libertar”. Provocou e plantou a indignação. Era “cruel e simpático” ao mesmo tempo. “Henfil” é um filme para ouvir. Para sentir a emoção. Para viajar no saudosismo de um artista completo que foi agraciado com a potência infinita da tradução exata do comportamento humano. Um “coveiro” dos artistas. Esta é uma obra de pesquisa e de estudo por enaltecer a História. Aqui, nós espectadores mergulhamos em um universo livre de moralidades e de politicamente corretos. Sim, um longa-metragem obrigatório.


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