Uma garota venezuelana

Por Fabricio Duque


“Tamara” é uma obra ficcional baseada na trajetória real de Tamara Adrian, a primeira mulher transgênero a ocupar um cargo político na Venezuela. A narrativa busca conduzir o espectador no processo de transmutação da personagem e suas consequências morais, psicológicas, comportamentais, sociais, físicas e de aceitação perante aos outros, e principalmente o ser que passa radicalmente por essas dificuldades a fim de igualar o corpo a sua mente feminina.

Quanto mais se estuda a sexualidade, mais gêneros e possibilidades existenciais são descobertos. E podemos garantir que apenas uma pequena parte foi catalogada. Se nossa mente possui bilhões de sinapses cognitivas, então por que cargas d’agua, nós indivíduos compartilhados, precisamos limitar binariamente dois extremos? Dois lados de uma moeda? Homem e mulher? “É um processo longo e complicado. O corpo vai sofrer mudanças radicais com a terapia hormonal”, diz a psicóloga.

“Tamara” é um estudo de caso dirigido pela venezuelana americanizada Elia Schneider (de “Desautorizados”, “Punto y raya”). De um homem que se sente violentado por uma sociedade maniqueísta. De ter que seguir regras político-comportamentais. Nosso protagonista, ainda Teo, tenta o caminho mais fácil: constituir uma família padrão, ter filhos e trabalhar em uma firma de advocacia com terno, gravata, barba e sapato masculino. É a figura da heterossexualidade normativa, cujo qualquer traço “anormal” de “conduta” gera preconceitos, chacotas e ofensas de pessoas que enraizaram o “tem que ser assim”.

A narrativa é constitutiva. Linear, apesar de suas elipses temporais. O tom novela do início objetiva a suavização do tema, mitigando emoções e sensibilidades. O objetivo é transpassar uma história teatralizada, de reconstituição representativa. De crítica que distancia a intimidade. De se comportar o tempo todo com o que se realmente quer viver integralmente. Uma transição vivida sem dúvidas.

Teo (Luis Fernández) vive com a imagem masculina de um advogado bem-sucedido, casado e com dois filhos. Há anos, carrega um segredo: o desejo de assumir a sua identidade feminina. Decidido a seguir seu coração apesar de todas as dificuldades que irá enfrentar, ele começa a realizar sua transição de gênero para se tornar Tamara por completo. Com o apoio-força da mãe (“A vida não vai esperar por você”, “Viva sua vida, não se importe com os outros”); a “relação distante” do pai; a intolerância agressiva e religiosa da mulher; a surpresa e abandono da nova namorada; o afastamento da presença dos filhos. Vale à pena todo o sofrimento e renúncia?

O longa-metragem busca reverberar outros filmes de temática semelhante, como o americano “A Garota Dinamarquesa”, de Tom Hooper; o canadense “Laurence Anyways”, de Xavier Dolan; “Elvis e Madona”, de Marcelo Laffitte, e principalmente, de forma quase explícita, o chileno “Uma Mulher Fantástica”, de Sebastián Lelio. Contudo, aqui, há um estranhamento com as pontas soltas, talvez pela necessidade da utopia ideológica de traduzir uma luta política: o direito ao próprio corpo e a própria identidade como participante do povo.

“Tamara” adentra em outras fragilidades. Uma recorrência de gatilhos comuns do universo LGBTQIA, apresentada com ingenuidade e inocência não espirituosa. O drama é potencializado para chocar e pedir mudanças e questionamentos. Outro ponto é que não há um equilíbrio à decisão da personagem de se “trocar” (apesar que a cena da cirurgia é uma das mais incômodas, no excelente sentido da palavra).

Vencedor do prêmio Secretaría General Iberoamericana (SEGIB), por Roteiro e Temática, o filme, épico de uma vida, busca contar a trajetória de um mulher nascida em um corpo errado de homem. Mas que não é homossexual. O necessitar se tornar uma figura feminina (ainda que operada com a redesignação sexual) não atrapalha o fato de se sentir atraída pelo mesmo sexo. É uma Crossdresser, mulher, lésbica. Mas qual o motivo de tanto estardalhaço? Por que não deixar cada um sendo cada um? Vivendo como melhor apetece? “Salto alto? Moda agora”, diz.

Entre a vida em Paris; a fita caseira antiga VHS das vivências da família; a passagem Air France na mão; o pedido para que “tire a fantasia”, “Tamara” pulula clichês mascarados pela importância do tema. O público, cúmplice da luta em voga, aceita e compactua com saídas mais simplistas, como a metáfora do vinho tanino. “Coisas mais complexas no vinho”, diz e é rebatido com “Mas o vinho continua sendo o que é”. Teo anula-se para ser o outro aceito por outros. Adequa-se aos “doze condenados”.

Aos poucos, o drama vai ganhando profundidade. Fica mais orgânico, sujo, decadente e realista, com sua nudez naturalista, seus “hormônios para ficar mais feminina”, a hesitação que causa vergonha e seus ruídos interferências. Pois é, o filme não cria afinidade com a personagem, parecendo que quer afastar até nós mesmos. “Mas o medo sempre existe, latente”, diz-se com a “verdade que incomoda”.

E cada vez, Teo, já como Tamara, sofre a hostilidade. O riso, zombaria (e o padre para ajudar) da esposa ao se assumir. A crueldade da escola católica. Mas não desiste. Embalada pela música “Perdi a Cabeça”, aceita a androgenia, a indefinição para chegar ao objetivo, querer e sonho finais. Como foi dito, é um filme de luta política em direito à população “diferente”, vulnerável e minoritária, que sofre com o fascismo de uma humanidade hipócrita. O Brasil é o país do mundo que mais mata travestis. Mas também é o povo que mais “consome” sexo com essas “aberrações” (chamados assim após atingir o nirvana do gozo no ato sexual). Sim, Jean-Paul Sartre já disse e resumiu todo um conceito: “O inferno são os outros”.

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