Sem alma

Por Vitor Velloso


Quando anunciaram que fariam uma espécie de “Evil Dead” brasileiro, não fiquei animado com a ideia, pela falta de originalidade e com a tentativa de emular esse projeto de terrir que envelheceu demasiadamente com o tempo. Mas ainda assim, porque não apoiar um filme que poderia, de fato, modificar a indústria de gênero no Brasil? Bom, Danilo Gentili. Chamaram o diretor de “Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola”, Fabrício Bittar, e o apresentador para realizarem o longa. Acontece que nenhuma das pessoas em cena são atores, ninguém é engraçado e o diretor não consegue fazer a própria misancene funcionar a seu favor. Mas… seguiremos.

A trama segue o padrão “Caça-Fantasma” onde uma equipe de youtubers, fazem um relativo sucesso na internet falseando todos os “casos”. Eles vão até uma escola onde supostamente a loira da banheiro estaria assombrando, e quando irão começar a fazer todas as suas picaretagens, a loira, de fato, aparece e cria uma zona do cassete. A trama em si, possui uma brasilidade curiosa, quem nunca cresceu escutando a história da loira do banheiro? Ainda que no “Exterminadores do Além” seja uma escola com uma estrutura bastante diferente dos padrões brasileiros, possivelmente para gerar uma aproximação com a estética cenográfica norte-americana. O elenco de comediantes lota os créditos: Léo Lins, Danilo Gentili, Dani Calabresa e Murilo Couto, bom, aparentemente eles são engraçados, ou alguém assim os chamou, nada contra, humor é algo que secciona o gosto das pessoas, porém, pessoalmente, eu não consigo rir deles, nem com a escatologia que beira o retardo mental, nem com a ideia do politicamente incorreto. Esta última por acaso, devo dizer, é algo que, acredito, possuir alguma importância no cenário midiático brasileiro, digo isso a partir de um ponto de vista simples, concordo com todas as militâncias acerca das libertações dos chavões retrógrados que submeteram nossa sociedade, porém, acredito que esta política deve ser feita com cuidado, digo isso, pois, quem a faz não representa nenhuma minoria, em grande parte dos casos, e não compreende o que é ser um corpo político em existência, logo, é necessário que haja consciência de seus atos quanto a isso.

Danilo e sua trupe, nem sempre passam dos limites, é verdade, mas quando os passa, normalmente, é em nível ideológico, algo que é extremamente desnecessário à obra que estamos vendo, afinal, vou ver um longa com um nome horroroso desses, com uma proposta trash, pra ver comentário político? Não, quero ver sangue e rir um bocado. Sangue eu vi, mas rir… A consequência do excesso de centralização em um não-ator que se força a repetir as piadas que faz em seu programa, fragiliza a proposta do filme. E esta repetição de jargões se mantém em outros níveis, Sikêra Junior, presente aqui, repete seu meme viral durante a projeção. Pra que? Um dos maiores acertos dos memes é quase impedir um revival, já que são trechos tão curtos e com uma competição de audiência tão intensa que não justifica o retorno de nenhum deles.

Mas o maior problema que Britto enfrenta, é sua autoria. Não me refiro a originalidade, até porque o roteiro admite todas suas influências e aceita isso como parte de seu tratamento estético, o que acho uma vantagem. A questão é que se o filme de 81, de longe o referencial mais óbvio, era um projeto de fato com um dinheiro limitado, que possuía o elemento “trash” como algo inerente ao funcionamento estilístico da obra, “Exterminadores” se propõe ser low budget, apenas para angariar uma parcela do público de terror e simpatizantes do pensamento político do apresentador. Então vemos a alma do filme surgir de forma não passional. E acredite, o público sente isso, quanto mais passa o tempo, não é possível ser fisgado, pois, é tudo calculado demais para ser um novo isso, um novo aquilo, fazer referência a tal coisa ou outra. E não acredito que Bittar seja um diretor incompetente, ao analisar os planos, vemos uma misancene minimamente coerente, algo compreensível, mas em diversos momentos enxerga-se que forçaram a barra a fim de ser “trash”, esgotam os recursos buscando a estética televisiva, provavelmente com o intuito de viralizar pós-temporada de exibição e no fim, ele não significou nada, porque se preocupou demais em chamar atenção, ego demais e tentativa de discurso ideológico demais. O excesso que eles buscavam acabou engolindo a obra.

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