Sem o pedigree de Shrek

Por Fabricio Duque


Cada vez o gênero de animação se distancia mais da inocência dos contos de fadas, desmistificando princesas e reinos encantados com a normalidade cotidiana. Há uma transmutação mais humanizada, de igualar esses seres mágicos e inalcançáveis a meros mortais, que sentem frustrações, desejos, projeções, sonhos e obrigações sociais.

Em “Encantado”, o príncipe (narcisista e pedante) salva três ícones das histórias infantis: A Bela Adormecida acorda do sono eterno por um beijo “ressuscitação”; Branca de Neve é salva da maldição da maçã envenenada; e Cinderela encontra seu sapatinho de cristal. E está de casamento marcado com as três.

Só que ele “não pode escolher porque não sabe o que é o amor”. E todas ganham o amor “troféu”, o “garoto de ouro” (que de tão bonito tem todas as mulheres hipnotizadas aos seus pés e que com um simples sorriso as faz desmaiar) para a toda vida. E que “todos os homens do reino” o odeiam. Maldições amaldiçoadas pelo príncipe ter “roubado” amadas de outros.

Por uma narrativa pop, regada a muitos close (poses) em números musicais performances a la Rihanna, Beyoncé e Adele, que pinça picardias e quebras perspicazes do politicamente correto, “Encantado” é sobre o mundo moderno no estilo MTV de ser, zoando com A Pequena Sereia, e ou Rapunzel que “salva” o príncipe “mimado e imaturo” das mulheres enlouquecidas, em um tom de humor à moda de “Shrek”.

A premissa de “Encantado” é quebrar a maldição de beleza dele (ser “encantador” para sempre) para que o povo fique feliz. E para descobrir o amor verdadeiro precisa embarcar na jornada “muito ardente” a Montanha do Fogo. Quando criança, o príncipe Felipe Encantado foi alvo da bruxa Morgana, que aplicou nele um feitiço que faz com que todas as mulheres por ele se apaixonem assim que o vêem. Com isso, ele não apenas salva como se torna noivo de três princesas em apuros: Branca de Neve, Cinderela e a Bela Adormecida.

O feitiço apenas será quebrado quando o príncipe encontrar o amor verdadeiro, algo bastante difícil diante de tamanha adoração. Precisando cumprir um desafio em três etapas, ele encontra apoio na ladra Leonora Quinonez, que está imune ao seu galanteio de “majestade Don Juan” e se transmuta de homem para ajudá-lo, à moda invertida de “Quanto Mais Quente Melhor” e seu “Ninguém é perfeito”.

Entre passarinhos cúmplices de roubo; o protagonismo representativo da anti-herói “ladra” (profissional, que faz a limpa nas ricas e famosas princesas “paranóicas”); os tabloides sensacionalistas fofoqueiros como os da família real britânica; a fada masculinizada; o monstro invencível gigante de pedra; as constantes brincadeiras com identidades de gênero;  fada travesti; a rave festa; o enforcamento; a teoria de “encontrar o amor neste mundo cruel” (principalmente por descrentes ateus); plantas assassinas; fadas de bênção real que “erram a mão”; ecos metalinguagem na cabeça, “Encantado” busca forçar demais a naturalidade espirituosa, soando um tanto quanto caricato e artificial, em seus clichês gatilhos comuns.

O filme é uma ode ao amor verdadeiro. O que não “faz sentido”. O da “fé cega um no outro”. O que é presenteado pelo acaso. É também musical. As canções norteiam e participam de intervalos temporais. As atrizes que dão voz a suas personagens são cantoras pop: Avril Lavigne, G.E.M, Demi Lovato, Ashley Tisdale.

“Encantado”, dirigido pelo criador Ross Venokur, é acima de tudo uma comédia romântica. Que se conduz pelo limbo do amor convencional e binário e uma quebra espirituosa, com seus alívios cômicos. Seu roteiro objetiva a saída mais facilitadora, fornecendo didáticas explicações diretas do que aconteceu e irá acontecer. Será destinado a um público intermediário? Crianças, adolescentes e uma piada e outra a um adulto? É sobre as dúvidas de um sentimento estranho e novo que é o amor. Sim, mas o que é o amor? Insensato? É a quebra de paradigmas esperados de o homem receber o ato ativo da mulher?

A solução para responder a pergunta foi por conceituar demais o que deveria ser sentido, vide a maestria da Disney (com sua emoção pulsante) e a dose certa da Pixar (que também é da Disney) de modernizar e aguçar sensibilidades. Pois é, é um filme que fica pelo caminho. Aventura demais. Informação demais. Pretendendo ser demasiadamente Shrek (tanto que é produto do mesmo produtor Produtor John H. Williams) com típicos exemplos hollywoodianos de romance adolescente. Não é de forma alguma ruim, mas comum e óbvio. No Brasil, Larissa Manoela e Leonardo Cidade dublam os protagonistas.

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