Lugar de fala

Por Vitor Velloso


Lugar de fala. A questão é antiga, mas só ganhou luz recentemente. Moralistas, vulgo descerebrados, dizem: “Coitadismo”, “Frescura” etc. A verdade é um pouco mais complexa que isso, não trata-se da proibição de falar sobre tal coisa ou outra, mas de uma vivência inexistente por parte da maioria que levanta a voz pra falar sobre o assunto. Sou pardo, morador da Zona Norte, porém, sou de classe média, posso eu subir no palanque falar dos problemas de racismo, machismo e cultura de estupro? Eu não devo. Durante um momento da projeção uma mulher negra diz: “Quando vocês citam ‘quebradas nos seus tccs e teses… cês citam os 6 filhos que dormem juntos?” A discussão vai um pouco além do social, político ou ético, moral? Não, vai na pele, na carne e na dor. Ou será que Rincon está mentindo quando fala: “Muitos querem ser preto como nanquim, sem a luta, querem a senha e o login”?

Clássico.

“Slam – Voz do Levante” é um manifesto acima de tudo. Pessoas que não tinham o direito de serem ouvidas, agora sobem, pegam o microfone e espalham pelo mundo sua poesia e sua vida. Assistir ao documentário é uma sucessão de arrepios, são versos e mais versos que vão na alma. Formalmente, é direto, possui um didatismo necessário que contextualiza a existência do movimento, inclusive um dos personagens cita seu início numa ideia próxima ao Jazz. Simbólico. Ao partir pro ato, temos uma abordagem ainda mais crua, uma câmera que busca acompanhar a performance dos artistas (em determinados momentos). Esses planos possuem uma força intensa, principalmente com as mulheres em cena. Só a presença em cena já é um espanto, uma atitude linda e com a sinceridade que machuca o esquerdo. Enquanto homem escutar cada palavra daquela, abre no peito uma culpa muito bem vinda. O sentimento é terrível é claro, principalmente com certas descrições feitas por elas, porém, ver a sabedoria, vivência e a revolta surgirem diante de você e saber que tais palavras, de certa forma, são direcionadas ao teu peito, provocam uma sensação única.

É claro, que ser colocado no mesmo barco que nazistas, fascistas, racistas e monstros de todos os tipos é desconfortável, mas afinal, o que destruiu a sociedade não foi a presunção do homem branco? Não há nada de errado na postura das artistas. Quanto a carga de culpa que determinado político diz não ter, hipocrisia, afinal, o mesmo ascendeu na vida pelas facilidades de ser um homem, branco e hétero, mais grave, passou a vida defendendo o orgulho de sua “causa”, que no dicionário traduz-se em ódio. É claro que seu nome é citado nas poesias de alguns dos resistentes da fala, esclarecendo todas as questões ditas anteriormente. Além disso, a visceralidade presente no gestual oral é simbólica, não apenas por terem sido obrigados a manter-se em silêncio por tanto tempo, mas também pela cultura de falecimento da manifestação promovida pela oratória, que promove uma oratória massiva. O ode às minorias que circunda os discursos não possui nenhuma proposta política além de sua emancipação e uso do direito de liberdade de expressão por essa razão, a participação nesses eventos é mais crucial que vencê-los. Como qualquer desenho de competição, há o desejo de tornar-se vitorioso ou ser reconhecido pela qualidade de seu trabalho, porém, os poetas e poetisas ali estando de corpo e alma, na consciência política do simples ato de existência, não se atém ao mesquinho desejo de apenas vencer. E esta é uma das maiores belezas do processo, pois, diferente de uma batalha de rap onde sempre haverá um no topo e esta refrega é dada pela disputa direta dos dois, em caráter, normalmente, difamatório, o slam muda essa perspectiva à um texto previamente escrito e encenado. Minha observação não é uma crítica ao rap, até porque a ideia é próxima, mas possui diferenças enormes, começando já na ideia do improviso.

A direção de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela é cirúrgica em contextualizar e narrar acontecimentos ao longo dos anos, uma decisão inteligente que mostra o crescimento da ideia e a forma que tudo isso impacta na vida dos praticantes. Suas maneiras de explicar os passos da resistência, funcionam com uma progressão voraz que é eficiente em contemplar o assunto ao estilo cinematográfico implementado. Mas perdão o cinema, este filme vai além do exercício crítico.

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