A Casa Que Davi Construiu

Por Fabricio Duque


Sim. O espectador já viu esse filme inúmeras vezes, de variados ângulos e de múltiplas formas. Mas também é preciso levar em conta que o cinema de gênero ainda engatinha no Brasil e que é fortemente influenciado e retroalimentado pela indústria de Hollywood. Em “O Segredo de Davi”, nós, público de massa, embarcamos em uma narrativa mais estética e mais apurada da imagem, cuja plástica mascara as fragilidades de um roteiro facilitador de filme B e repleto de clichês e gatilhos comuns (como a cena que lembra “Irreversível”, de Gaspar Noé).

Em um primeiro momento, precisamos dizer que “O Segredo de Davi” não se parece em nada com um filme brasileiro. Sua estrutura é moldada a uma obra mais globalizada, e se não fosse pela presença da língua portuguesa, nós certamente teríamos dificuldades em acertar sua nacionalidade.

Muito por causa do protagonista, o ator Nicolas Prattes, de cabelo loiro, olhos claros e estilo Hipster, que interpreta o tímido estudante de cinema Davi (com “vinte anos, mora sozinho e no Centro de São Paulo” e que parece uma mistura do ator Zac Efron com Chad Suede), que esconde um passado sombrio. Ele acaba se transformando em um serial killer que fica famoso por filmar as vítimas e colocar na internet.

À medida que as mortes acontecem, o seu segredo fica ainda mais ameaçado. Pelos reflexos da infância. Para ele, registrar uma imagem em uma máquina é para sempre. E observar é ser um voyeur de “flores mortas”. É “ir fundo no objeto do olhar e descobrir mais”. E “permanecer invisível, a única regra”. Com observadores observando observadores, à moda do seriado “Fringe”.

O longa-metragem conduz seu espectador por um universo referencial de ecos, encontrando similaridades com o seriado “Dexter” e “Mr. Robot”; e com os filmes “Simon Killer”, de Antonio Campos, e principalmente “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher, principalmente por uma fotografia mais artificial do neon e da lâmpada. E com um que de “Hereditário”, de Ari Aster, e “Quando Eu Era Vivo”, de Marco Dutra. E um final a la “Venom”, de Ruben Fleischer.

Talvez “O Segredo de Davi”, do estreante Diego Freitas (do curta-metragem “Sal”) na direção de um longa-metragem, dê mais importância à forma que o conteúdo. Suas reviravoltas sempre buscam um caminho mais fácil, mais mastigado, mais palatável ao grande público, visando assim mais a resposta comercial que a precisão autoral. São utilizados digressões didáticas e auto-explicativas, para que possa fornecer o elemento moral de que o personagem é desta forma por causa de seus traumas passados (por suas “carências emocionais”); câmeras lentas; narração em off.

Nenhum detalhe deixa de ser facilitador ao espectador. Inclusive a manipulação que rouba a atenção da beleza do ator. Alguns dirão: “Interpretar para quê?”. Sim, é um filme de muitos detalhes. Que tenta deixar tudo nos mínimos e perfeitos detalhes. Há Bullying. Há o indício da homossexualidade. Há uma insinuação longínqua de incesto. Ou a câmera que “envergonha”. Ou o hacker que “rouba pouquinho”. Tudo é forçadamente apresentado (quase desengonçada) e de maneira encenada (quase como um ensaio anti-naturalista).

“Por que filmar escondido? Porque quando estão distraídos, as pessoas mostram o que têm dentro delas”, diz e imagina a vida dos outros. Sim, a premissa de “O Segredo de Davi” é interessante (e que logicamente não se contará aqui para não estragar a surpresa). Mas também é puritano. Hesitado demais. Falta “sujeira”. É tudo limpo demais na “Praça de Deus”. É um milagreiro ou um diabo? (O anjo da morte?). Por querer dar “liberdade à matéria”?.

Entre confissões verborrágicas; silêncios apáticos; alucinações; projeções; a imortalidade da alma pela Salvação de Fédon; close extremo e agressivo da câmera; jogos; inversão de papéis; escrever “ideias e sonhos”; olhares interpretativos à moda de uma novela Maria do Bairro. “Se esqueceu da infância, teve um motivo”. “Os porquês das coisas são bobagens”, diz-se. Será esta um pedido de socorro à cumplicidade do público? Sumiu ou morreu?

“O Segredo de Davi” é sobre estar no limbo. Sobre libertar as culpas. Pela radicalidade da loucura que deturpa ordens temporais e espaços metafísicos. É “procurar o Éden”. Sobre “servir chá aos convidados”. Sobre não deixar rastros. Sobre a “casa que Davi construiu” sendo dramático demais, escrevendo para tornar mais sinceras as coisas, e desabrochando a câmera. “Filme é a arte favorita”, finaliza.

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