Cumplicidade Formal

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2018


“Excelentíssimos” chega no Festival do Rio para ocupar mais uma vaga de longas sobre o processo político atual, no caso se prendendo ao impeachment da Dilma. Diferente de “O Processo”, aqui temos uma proposta de circundar as cúpulas que encabeçaram todo o esquema até o fim. Existem duas diferenças primordiais que separam os dois filmes: Primeiramente é o uso da linguagem, no filme da Maria Augusta Ramos temos uma câmera mosca, um exercício de observação que vai nos interiores buscar respostas. Segundamente, “Excelentíssimos” não vai até a questão humana por trás de tudo isso, se mantém na ética até o fim. Comparações entre os dois longas serão inevitáveis, porém, alegar que “Excelentíssimos” está “datado”, perdão, não está. Tudo que está acontecendo na política atual é reflexo deste impeachment, além do mais, fazer juízo de valor de algo concreto e real ser datado ou não, é moralismo.

Dirigido por Douglas Duarte, o documentário possui um exercício de didatismo que pode ser lido como ironia pela parte ofendida da história, me refiro aos espectadores não aos políticos. A proposta direta de construir discurso é um ponto fundamental da obra, desde os primeiros minutos sabemos que lado ele está atacando, o público percebeu isso na hora. E por mais que eu seja um defensor da opinião política no cinema, devo confessar que a forma como Douglas decidiu levar seu pensamento a tela, possui fragilidades, não por uma questão dialética em si, afinal, ele joga os argumentos e contra-argumentos, as vitórias e derrotas, os demagogos e os “heróis” na tela, a questão é o discurso provocativo que ele busca implementar, que acaba funcionando apenas parcialmente, já que grande parte do jogo ácido cinematográfico está na forma como o espectador reage aos estímulos na tela. E “Excelentíssimos”, pode ser acusado de manipulador por este sentido, o que eu estou levemente inclinado a discordar, por compreender que a abordagem do longa está longe de ser apenas partidária, é humanista em sua essência, se falamos de ética, política e humanismo tornam-se faces da mesma moeda, ainda que o respeito a simultaneidade de ambos não consiga ser respeitado por grande parte da parcela dos brasileiros, vimos isto no período de votação das eleições, este ano.

Porém, este rótulo de “manipulador” existe uma justificativa simples, enquanto “O Processo” assumia seu ponto de vista dentro de um escopo limitado da política, de fato, uma parcela, o filme em questão vem com uma proposta mais analítica, com dados e exposições claras, com um pequeno fator, ele não consegue ser tão crítico ao caráter das parcelas no Congresso. E este fator é crucial no comprometimento de grande parte do público, já que trata-se de um tema que gerou uma bipolaridade imensa na sociedade brasileira. O que não quer dizer que o diretor não exponha os erros cometidos por ambos os lados, mas seu caráter se mantém diluído por decidir que o documentário siga um fluxo ditado por um narrador. A compreensão da montagem e da forma fílmica como o maior dispositivo dialético possível no cinema, me parece, um exercício mais politizado que deixar a projeção ditar o ritmo dos pensamentos do espectador.

Aliás, as pessoas na sessão reagiram aos gritos e todas as manifestações possíveis, algo positivo, claro, já que trata-se, de fato, de um discurso que possui seu público. Mas, apesar de possuir meus sentimentos por determinadas figuras que aparecem na tela, não me vi revivendo o que aconteceu em 2016. Exatamente pelo filme não ir na questão humana por trás de todos os maniqueísmos da corja que ditaram os acontecimentos. É compreensível a escolha do diretor, mas tratando-se de uma material tão unificado entre o discurso e a linguagem, como o documentário, a voz do realizador não é necessariamente o recurso ideal à proposta que é feita desde o início. A questão do autor se mantendo inerente à própria maneira de se realizar a obra e a visão que possui sobre sua película não deve apenas manter-se durante a exibição. E este é o sentimento que “Excelentíssimos” nos passa, que há um fim nessa cadência política e cinematográfica. O fervor deveria durar mais que duas horas e meia, afinal, ele tá durando mais de dois anos.

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