Silêncios com demasiados ruídos intermitentes

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2018


O novo filme de André Ristum é sobre as interferências ruidosas do silêncio, que não mais encontram lugar no nosso cotidiano contemporâneo. Busca-se traduzir os desesperos da explosão iminente dos limites de cada um. É sobre a solidão nossa de cada dia, que adentra em um lugar particular de uma apatia resignada à espera de novas negatividades, dramas e tragédias, porque assim, por mais que contraditório e masoquista, é que vem a força de se continuar vivendo.

“A Voz do Silêncio” é um simulacro de pessoas que projetam apenas em suas mentes as possibilidades salvadoras de suas existências fadadas ao fracasso. É um filme de esquetes de vidas corais (autônomas em seus movimentos metafisicamente ligados), que se entrelaçam em desgraças coletivas, em uma narrativa que se desenvolve por detalhes contemplativos (ora embaçados e distorcidos) do cotidiano ao redor, principalmente por comparar o engessamento de micro-ações e suas reações a percepções mundanas reais, como carros parados em um engarrafamento; os fades temporais; e os ângulos da câmera que focam os pés e os pneus.

O passar dos anos é impiedoso para todos. No filme, sete personagens aparentemente comuns conduzem suas vidas buscando, cada um, aquilo que acredita lhe trazer satisfação pessoal. Mas, mesmo com vidas distintas e distantes, eles se aproximam pela maneira como orientam suas existências com base em preocupações mundanas. Tudo envolto nas passagens letradas da música “Não existe amor em SP”, do cantor Criolo, que por sua vez pode ser também uma metáfora à forma mais limpa que se gravava em uma filmadora VHS, potencializada pela fotografia estilizada ao neon, para assim captar mais a fundo a decadência da intimidade.

“A Voz do Silêncio” é também um filme de cores, de esgotamento, de uma iminente, destrutiva e latente pressão, por incômodos ruídos externos. E por fragmentos de longos flashes: alguém está correndo, alguém está fazendo sexo, alguém está comendo, alguém está dançando (assim como no tempo verbal típico e característico que alude aos atendentes de telemarketing). É a vida normal acontecendo. Como ela é. Da necessidade da sobrevivência de se ter que trabalhar em vários empregos para que se tentar descobrir algum sentido no caminho seguido. E suas consequências de cansaço: do pescoço estalado e as poucas horas de sono. “Deus ajuda quem cedo madruga”, diz-se.

Mas toda essa ágil ambiência é apenas o preâmbulo. Seu filme realmente começa com a presença estática da imagem que expõem a intolerância hostil dos outros perante seus próximos. São máquinas sociais, robôs “orelhas”, individualizadas nos próprios universos tendo que conviver com outros descasos e outras idiossincrasias egocêntricas. É um filme sobre a desesperança, por um viés pessimista e de apocalípticas perspectivas.

O longa-metragem é sobre o último resquício de sonho possível de cada um. De uma artista que doa de graça performances de show para assim treinar mais, à moda estética de “Paraíso Perdido”, de Monique Gardenberg, por exemplo. É sobre amores estranhos em um moderno tango de reverberações atemporais. Com seus assédios morais, sexuais e psicológicos. Com suas pressões de metas (quase impossíveis) a cumprir, como um jogo em nível hard.

“A Voz do Silêncio” busca conectar-se pelo pano de fundo de um eclipse solar em quatro sobreposições avermelhadas, construindo uma alegoria com as vidas dos personagens. Tudo por um gerúndio que nada mais é do que uma noção de duração e continuidade de ação verbal. Nossos protagonistas experimentam a “lua de sangue” pela “arrogância” do poder daqueles que podem mandar.

O filme vai ganhando (assim mesmo em tom telemarketing de ser) um contexto mais novelesco. De diálogos mais simplistas que ingenuamente tentam traduzir vazios com vazios. Essa inocência, quase imatura, soa mais como gratuidade que conceito. Há uma urgência em produzir simbolismos, apresentados com um desengonçado imediatismo (repleto de gatilhos comuns e conflitos óbvios), que às vezes é azeitado com picos de maestrias imagéticas e com a descontinuidade a La Godard, que é não combinar som ao que se assiste. Só que pelo muito. Pelo excesso informativo de elementos. Da mãe beata (a atriz Marieta Severa) que expulsa o filho de casa por ser gay e por ser portador de uma doença terminal, por exemplo. Sim, é também uma obra de representatividades.

É um filme de altos e baixos. Um filme sobre a vida nua e crua. Completamente amadora e orgânica. Descabida e sem sentido. Então, como fazer com que o espectador mergulhe nesse carnaval de emoções? Pela presença blasé teatral dos atores? Pela soltura improvisada da direção de um realizador que nos brindou com “O Outro Lado do Paraíso”? Mordiscar com a patética sensação da percepção do próprio viver? Pelo bater das asas de integrantes solitários que nunca encontram seus lugares por incompatibilidades? Pelo classicismo e a modernismo de unir música pop com a obra do compositor checo austríaco de origem judaica Gustav Mahler? Será tudo isso um propósito inoportuno?

“A Voz do Silêncio” é sobre lembrar e esquecer. Sobre resgates da memória e seus lapsos. Sobre deslembrar para proteger a chegada do fim. Mas também é um filme sobre recomeços. Sobre aceitar culpas. Sobre redenções. Sobre transmutar uma depressiva desistência em pontos luminosos na saída de um túnel. Sobre o choque para obrigar a volta por cima com suas soluções alternativas. É a Caverna de Platão. Ou melhor, do Dragão, por ter sempre um Uni atrapalhando o retorno à vida real da jornada aventureira. “Que graça teria a vida sem morte!”, diz-se.

Concluindo, é um teatro encenado a um ensaio espontâneo, propositalmente solto demais. “A base é a técnica, mas o espírito faz a diferença”. Sim, o filme não consegue ganhar o espectador. É como na música citada anteriormente: “um buque de flores mortas em bares cheios de almas tão vazias e a vaidade excitante”. São muitos caminhos. Muitas bifurcações. Muitos moralistas e essencialmente politicamente corretos. Tanto que o público encontra-se completamente perdido na inocente selva de pedra existencialista apresentada. Que renova começos com novas oportunidades pela mesmice do mesmo, questionando Dante e sua frase “Abandonai toda a esperança”.

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